Brasil move ação na OMC contra tarifas de Trump: o que está em jogo no comércio global
O Brasil ingressou formalmente com ação na Organização Mundial do Comércio contra as tarifas impostas pelos Estados Unidos, marcando uma atualização significativa na postura comercial brasileira frente ao tarifaço de Donald Trump.
O Brasil na OMC: uma ação contra o tarifaço de Trump
O governo brasileiro deu um passo inéditas ao ingressar formalmente com uma ação na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as tarifas unilateralmente impostas pelos Estados Unidos sob o comando do presidente Donald Trump. A decisão, publicada no Diário Oficial da União em agosto de 2025, representa a principal investida do Brasil no organismo multilateral em resposta ao que o país considera uma violação flagrante às regras do comércio internacional. Com essa medida, o Brasil busca questionar a legalidade das tarifas de 40% sobre produtos brasileiros — somadas à tarifa de reciprocidade de 10% anunciada em abril, o que elevou a carga tarifária efetiva a 50% para as exportações brasileiras.
A ação brasileira na OMC ocorre em um momento crítico para o sistema multilateral de comércio. A administração Trump utilizou a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977 (IEEPA, na sigla em inglês) para justificar elevações tarifárias sem aprovação do Congresso, argumentando que o déficit comercial dos Estados Unidos constitui uma "emergência nacional". Essa interpretação é contestada por múltiplos países, e o Brasil decidiu ser um dos primeiros a levar o caso ao órgão de resolução de disputas da OMC.
O tarifaço e seu impacto sobre as exportações brasileiras
As tarifas impostas por Trump afetaram diretamente setores estratégicos da exportação brasileira. O tarifaço de 40%, aliado à tarifa de reciprocidade de 10%, elevou a carga sobre produtos brasileiros a 50%, com cerca de 700 exceções concedidas para atender a interesses de setores específicos norte-americanos, como aeronaves e suco de laranja. Essa medida criou um cenário de profunda incerteza para exportadores brasileiros, que passaram a enfrentar barreiras comerciais sem precedentes em seus principais mercados.
Apesar do impacto, dados do acumulado de 2025 até novembro mostram que as exportações brasileiras em volume cresceram 4,3% em relação a 2024, uma variação acima da observada no mesmo período entre 2023 e 2024, que foi de apenas 0,4%. Esse resultado sugere que o Brasil conseguiu parcialmente compensar a perda do mercado estadounidense por meio do redirecionamento de exportações para outros parceiros, notadamente a China. O gráfico de variação em volume das exportações pelos principais parceiros comerciais do Brasil ilustra essa compensação: enquanto as vendas para os Estados Unidos recuaram, as exportações para a China registraram forte alta.
A Argentina permanece como o terceiro principal mercado para as exportações brasileiras, com participação de 5,4% no total exportado. No comércio de mercadorias, o Brasil ocupa a 24ª posição no ranking mundial de exportadores, com 1,4% das exportações mundiais — mas quando se considera o comércio de serviços, o país nem sequer figura na lista dos 30 principais exportadores, segundo dados da OMC.
O sistema multilateral de comércio em crise
A ação do Brasil na OMC se insere em um contexto mais amplo de crise do sistema multilateral de comércio. Especialistas têm alertado que o tarifaço de Trump representa a "morte do sistema multilateral" tal como concebido no pós-guerra. As medidas unilaterais do governo estadounidense evidenciam uma ruptura com os pilares do livre comércio que sustentaram a ordem comercial internacional nas últimas décadas.
A Organização Mundial do Comércio projetou um aumento de apenas 0,5% no volume do comércio de mercadorias para 2026, um recuo significativo de 1,9 ponto percentual em relação a 2025. Os serviços, contudo, devem registrar um crescimento de 4,4%, impulsionados principalmente pelos itens associados à economia digital e às novas tecnologias de informação. A OMC também planeja cortar cerca de 10% de suas despesas em 2026 após a inadimplência dos Estados Unidos e de outros países no financiamento do organismo.
O embate entre Estados Unidos e China permanece como uma das questões cruciais para o ordenamento do sistema de comércio mundial. A trégua entre as duas maiores economias do mundo, assinada em novembro de 2025, não tem sido utilizada como um diálogo para avançar reformas do sistema multilateral. Analistas resaltam que a trégua deverá ter curta duração — um exemplo emblemático foi o compromisso da China de comprar 12 milhões de toneladas de soja entre novembro e dezembro de 2025, que não foi cumprido e teve seu prazo estendido.
A China tomou uma medida significativa ao renunciar ao uso do Tratamento Especial e Diferenciado para países em desenvolvimento na OMC em 2025. Essa decisão sinaliza que o país busca ser visto como uma das lideranças para uma reforma do sistema multilateral, mostrando que Pequim está disposta a assumir responsabilidades crescentes na governança comercial global. O desafio, contudo, permanece: quais regras poderão acomodar a diversidade de formas de atuar nas políticas domésticas, pautas em valores e formas de entendimento diversos do funcionamento das economias?
Contrapontos, riscos e limites
A estratégia brasileira de acionar a OMC não está isenta de riscos e limitações. A organização atravessa uma grave crise de funcionalidade, com tribunais de apelação paralisados por conta do bloqueio estadounidense à nomeação de novos membros para o Órgano de Apelação. Isso significa que, mesmo que o Brasil obtenha ganho de causa formal, a implementação de eventuais decisões positivas dependerá da boa vontade política do governo Trump, que já demonstrou pouco interesse pelo sistema multilateral.
Há também o risco de retaliações. Ao mover uma ação contra os Estados Unidos na OMC, o Brasil pode despertar medidas retaliatórias em outras frentes, especialmente em um momento em que o governo estadounidense busca acordos bilaterais com vantagens comerciais. A tática de Trump tem sido utilizar o tarifaço como instrumento de pressão para a obtenção de acordos que beneficiem os Estados Unidos em temas como minerais raros e compromissos de investimentos em território estadounidense. Na América Latina, já foram assinados acordos com Argentina, Guatemala, El Salvador e Equador, deixando o Brasil em uma posição delicada.
Além disso, existe a questão da legitimidade do próprio processo. A Suprema Corte dos Estados Unidos ainda não decidiu sobre a legalidade do uso da Lei de Emergência para imposição de tarifas. Mesmo que a Corte aceite o uso da lei, outros cenários são possíveis: aumento da pressão doméstica pelo fim do tarifaço, perspectiva de ganho dos democratas na eleição do Mid Term são possibilidades que podem levar Trump a acelerar acordos com as economias mais relevantes no primeiro semestre de 2026. Mesmo que as tarifas recíprocas sejam retiradas, o governo estadounidense pode continuar estendendo o uso da Seção 301, permitindo a aplicação de medidas unilaterais sem passar pela OMC.
Fontes consultadas
FGV Ibre — Os cenários do comércio exterior para o Brasil em 2026
CNN Brasil — Ação na OMC contra tarifas dos EUA é autorizada formalmente pelo governo
OPEB — Impactos e oportunidades da guerra comercial para as relações Brasil-China
G1 — Silêncio internacional sobre guerra comercial de Trump é resultado de desmonte racional
CEBRI — Da geoeconomia à geopolítica de Trump
Poder 360 — Lula: OMC "nunca mais funcionou" depois da eleição de Obama
Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial generativa como ferramenta de assistência à redação e de forma automatizada. As análises e opiniões expressas não constituem aconselhamento jurídico.
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