BNDES e Finep lançam fundo de R$ 205 milhões para startups de inteligência artificial
BNDES e Finep abriram chamada pública para selecionar gestor de um fundo de R$ 205 milhões voltado a startups intensivas em IA; prazo para propostas termina em 28 de maio.
O fundo que o Brasil precisa para competir em inteligência artificial
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) lançaram, em abril de 2026, uma chamada pública para escolher o gestor de um Fundo de Investimento em Participações (FIP) dedicado exclusivamente a startups intensivas em inteligência artificial. O valor total comprometido pelas duas instituições chega a R$ 205 milhões: R$ 125 milhões do BNDES e até R$ 80 milhões da Finep, por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). O prazo para envio eletrônico de propostas termina em 28 de maio de 2026. A iniciativa integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e a Nova Indústria Brasil (NIB), políticas que orientam a estratégia tecnológica do governo federal.
O objetivo declarado pelo poder público é claro: ampliar o número de empresas brasileiras de IA, aumentar o faturamento dessas startups e expandir sua presença internacional. Trata-se de uma tentativa deliberada de posicionar o Brasil como referência mundial em inovação e uso de inteligência artificial, nos termos do próprio PBIA. Para os críticos, a ambição é justificada, mas os desafios de execução de um fundo de participações dessa natureza não devem ser subestimados. O país já tem exemplos de políticas de incentivo à inovação que geraram recursos abundantes, mas resultados mistos na prática.
O que o fundo vai financiar e quem pode acessar
A chamada pública estabelece que serão elegíveis startups intensivas em inteligência artificial, ou seja, empresas cujo modelo de negócio e geração de valor dependam centralmente da IA, e não apenas de forma acessória ou complementar. Essa delimitação exclui empresas que utilizam IA como ferramenta adicional sem que ela constitua o núcleo de sua proposta. O fundo terá capital mínimo de R$ 160 milhões, com possibilidade de aporte adicional.
Um ponto de destaque é a regra de regionalização: do total de recursos investidos pela Finep, 30% serão obrigatoriamente direcionados para startups situadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Essa é uma tentativa deliberada de desconcentrar o ecossistema de inovação brasileiro, que historicamente se concentra em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil destacaram a relevância dessa exigência, mas apontaram desafios práticos: essas regiões possuem menos aceleradoras, menos investidores-anjo e menos infraestrutura de apoio à pesquisa, o que pode limitar a capacidade de absorção dos recursos mesmo com a reserva obrigatória.
Contexto: por que o Brasil precisa de um fundo de IA agora
A criação do FIP de IA ocorre em um momento de intensificação global da corrida tecnológica. Estados Unidos, China e União Europeia têm liberado centenas de bilhões de dólares em subsídios e programas de apoio a empresas de inteligência artificial. O Brasil, mesmo com instrumentos como a Lei do Bem, que oferece dedução adicional de até 60% em despesas com pesquisa e desenvolvimento, ainda ocupa posição modesta no ecossistema global de IA. A criação de um fundo de participações com esse volume representa, ao menos no papel, uma mudança de escala na forma como o poder público brasileiro se posiciona diante desse desafio.
Os números recentes mostram que o mercado brasileiro de capitais para inovação já apresenta sinais de evolução. Em 2025, 39% de todo o capital investido em startups no Brasil foi direcionado a empresas que aplicam inteligência artificial de forma intensiva, segundo dados divulgados pela Finep e pelo BNDES. Até fevereiro de 2026, o BNDES havia alocado quase R$ 5,1 bilhões para o setor de IA, considerando operações de crédito e investimentos em participação. Esse valor responde por cerca de metade dos US$ 2,1 bilhões levantados pelo Brasil para inteligência artificial até aquele momento, o que torna a instituição o maior agente individual de financiamento à IA no país.
Os desafios estruturais do ecossistema brasileiro de inovação
Apesar dos números animadores, especialistas advertem para obstáculos que vão além da disponibilidade de capital. A produtividade das pequenas e médias empresas brasileiras ainda é significativamente inferior à de países da OCDE, mesmo após programas de apoio como os do SEBRAE, que informaram aumento de 52% na produtividade de negócios atendidos. A baixa produtividade está relacionada a fatores como burocracia, gargalos logísticos, defasagem tecnológica e dificuldade de acesso a mercados internacionais.
O próprio PBIA reconhece que o país enfrenta um déficit de pesquisadores e profissionais qualificados em áreas centrais da inteligência artificial. A formação de mão de obra, a infraestrutura de dados e a governança de inteligência artificial são desafios que um fundo de participações, por mais robusto que seja, não resolve isoladamente. O Tribunal de Contas da União, em relatórios recentes sobre programas de inovação, tem alertado para o risco de que recursos públicos sejam direcionados a empresas com alto potencial de geração de propriedade intelectual, mas baixa capacidade efetiva de escalonamento comercial.
Impactos esperados e perspectivas para startups brasileiras
Para o presidente da Finep, Luiz Antonio Elias, o FIP representa uma iniciativa para desenvolver soluções de inteligência artificial que promovam o aumento das atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação no setor. A visão dele é que a IA pode melhorar significativamente a qualidade de vida da população, desde que o país consiga formar um ecossistema robusto de empresas inovadoras. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, reforçou que a inteligência artificial vem se consolidando como tecnologia transversal, com potencial de elevar a produtividade em todos os setores da economia.
Do ponto de vista prático, um fundo de participações como este oferece vantagens que vão além do capital. Startups que recebem investimento de um FIP gerido por profissionais experientes também ganham acesso a governança, mentoria e rede de contatos que dificilmente conseguiriam em rodadas puramente privadas em estágios iniciais. O BNDES tem histórico de atuação como investidor paciente, o que pode ser um diferencial em um mercado onde startups de tecnologia de base científica levam mais tempo para atingir rentabilidade.
Quem são as startups intensivas em IA no Brasil hoje
Setores como fintech, saúde, biotecnologia, logística e agronegócio concentram grande parte das startups brasileiras que já utilizam inteligência artificial como eixo central de seus modelos de negócio. Relatórios de gestores de venture capital activos no país identificam pelo menos 50 fundos e investidores-anjo especializados no setor financeiro digital, o que sugere um ecossistema em maturação. Porém, o número de empresas genuinamente de base científica, ou seja, com pesquisa original em modelos de linguagem, visão computacional ou sistemas de decisão autônomos, ainda é reduzido quando comparado a centros como São Francisco, Londres ou Tel Aviv.
A exigência de que a IA seja elemento central do modelo de negócio, e não apenas acessório, deve selecionar empresas com maior propensão a inovação disruptiva. Por outro lado, pode afastar startups em estágio inicial que ainda estão descobrindo seu núcleo tecnológico. Esse é um dilema que o gestor do fundo terá de navegar ao longo da vida útil do FIP, cujo prazo de investimento inicial será de cinco anos, com duração total de dez anos.
Contrapontos e limites da iniciativa
A crítica mais recorrente a políticas públicas de apoio à inovação no Brasil é que a estrutura burocrática e os critérios de elegibilidade frequentemente beneficiam empresas já consolidadas ou ligadas a grandes grupos econômicos, em detrimento de empreendedores individuais e startups genuinamente em estágios iniciais. Relatórios da OCDE sobre financiamento a pequenas e médias empresas no Brasil apontam que o acesso a crédito e capital permanece dificultado para negócios sem histórico de receita ou garantias tangíveis.
Além disso, especialistas advertem que a meta de tornar o Brasil referência mundial em IA até um horizonte definido depende de fatores que nenhum fundo de investimento, por si só, consegue criar: sistema educacional forte em ciência da computação e matemática, infraestrutura de dados públicos de qualidade, regulamentação clara sobre uso de dados e inteligência artificial, e integração efetiva com mercados globais. Um fundo de R$ 205 milhões é significativo no contexto brasileiro, mas representa uma fração do que economias como a dos Estados Unidos ou da China destinam ao setor.
Há também o risco de que a concentração regional dos investimentos, embora mitigada pela regra dos 30% para o Norte, Nordeste e Centro-Oeste, ainda reflita as desigualdades estruturais do país. Sem programas complementares de formação, incubação e aceleração nessas regiões, o dinheiro pode não encontrar projetos suficientes com o perfil exigido. Nesse cenário, o gestor do fundo teria de fazer um trabalho ativo de desenvolvimento de pipeline, e não apenas de seleção de oportunidades.
O que esperar nos próximos meses
Com o prazo de propostas fixado em 28 de maio de 2026, a expectativa é que o processo de seleção do gestor seja concluído nos meses seguintes, com os primeiros investimentos podendo ocorrer ainda no segundo semestre deste ano. O PBIA e a NIB preveem metas quantitativas de ampliação do número e faturamento de startups de IA brasileiras, que servirão de indicador para avaliar o sucesso do fundo ao longo do tempo.
A iniciativa também será observada de perto por gestores de venture capital privados, que podem tanto competir com o fundo pelas melhores oportunidades quanto estabelecer parcerias de co-investimento. A experiência internacional mostra que fundos soberanos de desenvolvimento, quando bem estruturados, conseguem catalisar aporte privado significativo, ampliando o efeito multiplicador dos recursos públicos. No Brasil, o BNDES já tem experiência com esse modelo por meio de outros fundos de participações, o que pode acelerar a curva de aprendizado do novo FIP de IA.
O resultado final dependerá não apenas da qualidade do gestor selecionado, mas da capacidade do ecossistema brasileiro de inovação de transformar recursos públicos em empresas competitivas globalmente. O fundo é um instrumento poderoso, mas está inserido em um contexto de desafios estruturais que não serão resolvidos por uma única política. Ainda assim, a escala do comprometimento de recursos e o alinhamento com a estratégia nacional de inteligência artificial tornam esta iniciativa uma das mais ambiciosas já lançadas no país para o setor.
Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial generativa como ferramenta de assistência à redação e de forma automatizada. As análises e opiniões expressas não constituem aconselhamento jurídico.
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