Brasil bate recorde histórico de turismo em 2025 e busca consolidar alta em 2026
Com quase 9,3 milhões de visitantes estrangeiros, o país lidera o crescimento global do setor e enfrenta o desafio de transformar o boom argentino em desenvolvimento estruturado de longo prazo.
O Brasil no topo do ranking global de turismo
O Brasil encerrou o ano de 2025 com um resultado histórico no turismo internacional. Segundo dados do Ministério do Turismo, o país recebeu quase 9,3 milhões de visitantes estrangeiros ao longo do ano, o que representa um crescimento de 37,1% em relação a 2024. Esse é o maior volume já registrado na série histórica com início em 1970, e coloca o Brasil como o país com maior crescimento na chegada de turistas no mundo naquele período, à frente de destinos como Egito, Marrocos e Seychelles, segundo relatório da ONU Turismo.
O faturamento seguiu na mesma direção. Os turistas estrangeiros deixaram US$ 7,86 bilhões no Brasil em 2025, o maior valor da série histórica iniciada em 1994, conforme dados do Banco Central. A consultoria internacional Phocuswright, que mede reservas de viagens globalmente, aponta o Brasil como o destino com maior crescimento em reservas no mundo, com 37,3% de alta ante 18,2% do México, segundo colocado.
Os números que sustentam o otimismo
Os dados da Tourism Economics projetam que o Brasil deverá registrar 868,2 mil pernoites domésticas em 2026, o que representa um crescimento de 19,5% em relação aos níveis pré-pandemia de 2019. O gasto direto com hospedagem deve atingir US$ 23,2 bilhões, correspondendo a cerca de 18% do total das despesas em viagens domésticas. A expectativa da Embratur é que 2026 supere 2025, com a chegada de cerca de 10 milhões de turistas estrangeiros.
No transporte aéreo doméstico, destinos fora dos centros consolidados ganham espaço. O Rio Grande do Norte lidera as projeções de crescimento, com aumento esperado de 34%, seguido pelo Tocantins com 25%, Rio Grande do Sul com 24%, Rondônia com 22% e Paraíba com 19%. Os números indicam uma diversificação geográfica da demanda turística interna, com destaque para os estados do Nordeste e da Região Norte.
O boom argentino e seus limites estruturais
Não é possível compreender o recorde de 2025 sem analisar o papel da Argentina nos números. Os vizinhos foram responsáveis por 36% do fluxo turístico internacional no Brasil, com quase 3,4 milhões de visitantes. No ano anterior, esse número foi de 1,9 milhão, o que significa um crescimento de 73% em um único ano. A presença argentina se concentra nos estados fronteiriços do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, além do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Pernambuco.
A alta se explica, em parte, pela crise econômica argentina, que torna o Brasil uma opção barata para os vizinhos, e pela facilidade de fronteira. Contudo, especialistas alertam que esse tipo de crescimento possui limites. O professor Alexandre Panosso Netto, pesquisador de turismo da USP, afirma que o dado bruto é positivo e mostra que o país voltou a aparecer no radar de diferentes mercados, mas pondera que ele precisa ser acompanhado de políticas estruturantes para se transformar em desenvolvimento de longo prazo. A grande inflada de argentinos nos números exige cautela na interpretação dos recordes.
A diversificação além da vizinhança
Para que o Brasil não dependa excessivamente de um único mercado emissor, é necessário ampliar a atração de turistas de outras procedências. A plataforma de reservas Booking.com colocou o Brasil na lista de destinos tendências pelo segundo ano consecutivo, com Manaus como cidade escolhida para 2026. Em 2025, a indicação foi João Pessoa. O diretor-executivo da Booking.com para as Américas, Ian Ackland, avalia que o Brasil vive um claro aumento de visibilidade internacional, refletido não apenas nos números oficiais, mas também em sinais iniciais de intenção dos viajantes, como o comportamento de busca. A plataforma aponta crescimento exponencial de buscas para cidades como São Paulo, Búzios e Florianópolis ao longo de todo o ano.
A gastronomia como vetor da experiência turística
O turismo gastronômico ganhou relevância central na estratégia de atração de visitantes. A CNN Brasil, com base na Revista Tendências do Turismo 2026 elaborada pelo Ministério do Turismo, Embratur e Braztoa, aponta que a gastronomia permite ao viajante conhecer um local por meio de seus sabores, ingredientes e modos de preparo. Visitas a mercados locais, feiras, lojas de conveniência e restaurantes fazem parte da experiência, assim como oficinas culinárias nas quais o turista aprende técnicas e receitas regionais.
Segundo a Abrasel, o avanço do turismo internacional se traduz em mais mesas ocupadas e tíquete médio maior em bares e restaurantes de destinos turísticos. O presidente da entidade, Paulo Solmucci, destaca que o momento é positivo porque o aumento da circulação de renda nos destinos cria oportunidades concretas de crescimento. A presença de turistas estrangeiros também influencia as avaliações em plataformas digitais, fortalecendo a reputação dos estabelecimentos e atraindo consumidores locais.
Destinos que se reinventam pela culinária
A Booking.com aponta Espírito Santo do Pinhal, em São Paulo, como destino tendência para 2026, um refúgio para amantes do vinho e do café. A Serra da Canastra, em Minas Gerais, ganha destaque pelas queijarias artesanais. Maceió, em Alagoas, e João Pessoa, na Paraíba, foram mencionados pelo Airbnb como destaques pela culinária regional. O enoturismo também avança com visitas a vinícolas e harmonizações. Em Manaus, o restaurante Caxiri sente de forma clara os efeitos do crescimento do turismo internacional, segundo sua proprietária, Débora Shornik, que afirma que o turista estrangeiro quer se sentir respeitado e valorizado, buscando experiências de qualidade que exigem preparo da equipe e atenção aos detalhes.
Bem-estar, esporte e mídia como impulsionadores
A Revista Tendências do Turismo 2026 identificou 18 tendências recorrentes para o setor, organizadas em três eixos: experiências no destino, fatores que orientam a escolha e comportamento de planejamento. No eixo de experiências, o turismo de bem-estar aparece como uma das principais tendências, com destaque para spas, águas termais, tratamentos de beleza e atividades físicas que priorizam contato com a natureza, como trilhas, ioga ao ar livre e meditação. No Brasil, Bonito, no Mato Grosso do Sul, e os Lençóis Maranhenses, no Maranhão, são exemplos de destinos que unem natureza e bem-estar.
O turismo esportivo também cresce. A plataforma Expedia apontou a capoeira como uma das atividades esportivas mais procuradas para 2026. A prática, reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, atrai turistas que buscam experiências culturais completas. O set-jetting, prática de viajar para destinos que serviram de cenário para filmes e séries, continua em alta, como aconteceu em Recife após o sucesso do filme O Agente Secreto.
Os limites do crescimento rápido
É importante notar que o crescimento acelerado do turismo no Brasil ocorre em um contexto de infraestrutura que ainda não acompanhou a demanda em diversos destinos. Aeroportos, estradas, sinalização turística e mão de obra qualificada permanecem como desafios em várias regiões. A sazonalidade também segue como questão relevante, com picos de demanda que pressionam serviços e preços em determinadas épocas do ano, enquanto destinos ficam subutilizados em outras.
Contrapontos e incertezas do modelo de crescimento
Apesar do otimismo, o cenário contém nuvens que merecem atenção. A projeção de 10 milhões de turistas estrangeiros para 2026 feita pela Embratur contrasta com a projeção da Tourism Economics, que estima 8,4 milhões de chegadas, o que representaria uma retração de 9,4% em relação a 2025. A GlobalData, por sua vez, apresenta um cenário mais otimista, projetando crescimento de 6% nas chegadas, para 9,84 milhões. Essa divergência entre fontes credíveis mostra que os números dependem de variáveis externas, como a performance da economia global, o câmbio, a disponibilidade de voos e a percepção de segurança do Brasil no exterior.
Além disso, o perfil do turista que vem ao Brasil ainda é predominantemente regional. O país continua atrás de destinos como México, Tailândia, República Dominicana e Colômbia em volume de visitantes internacionais, mesmo tendo atrativos continentalmente superiores. Isso sugere que o Brasil ainda não consegue converter seus recursos naturais e culturais em atração consistente de mercados distantes como Europa, Ásia e América do Norte.
Cenários e o caminho para a consolidação
Para que 2025 não seja um episódio isolado, o Brasil precisa de políticas públicas consistentes. O professor Panosso Netto reforça que os recordes precisam ser acompanhados de estruturação para se transformarem em desenvolvimento de longo prazo. Isso inclui investimentos em infraestrutura, qualificação profissional, promoção internacional contínua e diversificação dos mercados emissores.
A gastronomia, o bem-estar e o esporte são caminhos promissores porque conectam atrativos brasileiros já existentes a demandas globais crescentes. Contudo, a dependência do mercado argentino e a infraestrutura insuficiente em diversos destinos impõem limites reais ao crescimento. O desafio não é apenas atrair mais turistas, mas garantir que a experiência vivenciada por eles gere retorno sustentável para as comunidades receptoras, o meio ambiente e a economia local.
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