Desinformação, deepfakes e IA nas eleições de 2026: o que está em jogo na maior tensão democrático-institucional em décadas
Análise abrangente sobre os riscos que ferramentas de inteligência artificial e redes coordenadas de desinformação representam para as eleições de 2026, e sobre a capacidade real das instituições brasileiras de resposta.
O alerta da Justiça Eleitoral e o diagnóstico da desinformação como estratégia permanente
A proximidade das eleições de 2026 ocorre em um ambiente marcado pela intensificação da desinformação política, pela reorganização de redes digitais já testadas em pleitos anteriores e pelo uso cada vez mais sofisticado de tecnologias para interferir na formação da opinião pública. O cenário foi sintetizado em alerta feito pela presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Cármen Lúcia, ao abrir um seminário sobre segurança, comunicação e desinformação no processo eleitoral. A circulação deliberada de mentiras e conteúdos manipulados tem como objetivo capturar a vontade livre do eleitor e produzir descrença nas instituições democráticas, afirmou.
O diagnóstico dialoga com análises acumuladas desde as eleições de 2018 e 2022, que indicam a consolidação da desinformação como estratégia política permanente, e não como fenômeno episódico de campanha. Para a ministra, o problema não está nas ferramentas digitais em si, mas no uso intencional, reiterado e organizado dessas tecnologias para distorcer a percepção pública e interferir no processo de escolha do eleitor.
A distinção entre episódio e sistema: o que mudou desde 2018
Pesquisas acadêmicas realizadas nos últimos anos indicam que a desinformação política no Brasil não opera de forma difusa ou espontânea. Estudos do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro mostram que campanhas de desinformação se estruturam em redes coordenadas, com divisão de funções, reaproveitamento sistemático de narrativas e circulação planejada de conteúdos. Relatórios do laboratório sobre o ciclo eleitoral de 2022 identificaram a atuação combinada de plataformas abertas, como X e Facebook, com ambientes fechados de difícil monitoramento, como WhatsApp e Telegram.
Nessas redes, conteúdos falsos ou distorcidos sobre o sistema eleitoral, o funcionamento das urnas eletrônicas e a atuação do Judiciário foram difundidos de forma recorrente, muitas vezes reciclados de eleições anteriores, com pequenas adaptações discursivas. A força dessas redes não reside apenas no volume de mensagens, mas na capacidade de produzir ambientes informacionais paralelos, nos quais versões alternativas da realidade circulam sem contraponto, reforçando desconfiança institucional e polarização política.
Deepfakes, IA generativa e a nova escala do problema
A preocupação da Justiça Eleitoral se estende ao uso de novas tecnologias, como ferramentas de inteligência artificial generativa, capazes de produzir imagens, vídeos e áudios falsos com alto grau de verossimilhança. Pesquisadores alertam que esse tipo de recurso amplia o potencial de manipulação emocional e dificulta a distinção entre informação verdadeira e fabricada, sobretudo em ambientes digitais de circulação rápida.
O episódio do Deputado Rogério Correia é emblemático. Em fevereiro de 2026, ele publicou no X uma imagem na qual Jair Bolsonaro aparecia sorridente, abraçado ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, legendando que a foto era o retrato da roubalheira do Banco Master. A imagem era gerada por IA e mostrava um encontro que nunca aconteceu. O material foi visualizado por mais de 46 mil usuários e compartilhado quase 800 vezes antes de ser removido. Correia foi enquadrado na resolução do TSE e ordenado a se retratar publicamente.
O monitoramento já em curso: números e alvos principais
Segundo monitoramento feito pelo Observatório IA nas Eleições, pelo menos 137 deepfakes de autoridades circularam nas redes sociais apenas entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, sendo um terço publicado por políticos. Mais da metade foi veiculada no Instagram, e apenas um quarto sinalizava expressamente o uso de IA na produção. O principal alvo foi o presidente Lula, representado em 43 imagens e vídeos falsos. Houve volumes consideráveis também envolvendo Bolsonaro, o Deputado Nikolas Ferreira e o Senator Flavio Bolsonaro.
Para Carla Rodrigues, coordenação de plataformas e mercados digitais da Data Privacy Brasil e co-coordenadora do Observatório IA nas Eleições, o principal uso feito por políticos tem sido a produção de memes e engajamento, mas já se observam materiais mais sofisticados que se aproximam do realismo. A mudança de patamar é uma questão de tempo, e os efeitos concretos podem aparecer especialmente no período pré-eleitoral.
Os múltiplos níveis de pressão sobre o processo eleitoral
A desinformação não se limita ao uso de deepfakes. Ela se alimenta de três fatores centrais identificados por estudos do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio: alta polarização política, baixa confiança nas instituições e predominância de conteúdos emocionais na comunicação digital. Mensagens que exploram medo, indignação ou ressentimento tendem a circular com maior velocidade do que informações verificadas, especialmente em períodos pré-eleitorais.
Pesquisas associadas ao Comitê Gestor da Internet no Brasil mostram que a percepção de exposição a notícias falsas permanece elevada entre os eleitores brasileiros, com crescimento da desconfiança sobre a informação política consumida online à medida que se aproximam períodos eleitorais. Levantamentos do CGI.br indicam que apenas 51% dos usuários de internet no país checam as informações que recebem online, número que cai para 37% entre os que usam apenas celular.
Interferência internacional e o cenário de 2026
Além dos fatores domésticos, analistas alertam para a possibilidade de interferência internacional nas eleições de 2026. A Washington Brazil Office identificou quatro tipos de interferência mais prováveis: endosso explícito e direto a candidatos de extrema direita; apoio financeiro disfarçado; ameaças veladas de intervenção militar em caso de vitória de Lula; e mobilização de especialistas estrangeiros para apoio operacional a aliados.
A classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras pelo governo americano, a tentativa de envio de Darren Beattie para encontrar Bolsonaro na prisão e a oferta de Milei de asilo político a um condenado pela tentativa de golpe de 2022 são sinais que, segundo essa análise, compõem uma arquitetura de pressão sobre o processo eleitoral brasileiro. Não se trata de teoria conspiratória, mas de padrão observável em outros contextos onde interferência ocorreu.
As regras do TSE e os limites da resposta institucional
O Tribunal Superior Eleitoral aprovou um manual elaborado pelo vice-presidente Kassio Nunes Marques que autoriza praticamente qualquer conteúdo gerado por IA, desde que indivíduos não sejam falsamente retratados cometendo crimes e que o emprego de ferramentas digitais esteja explicitamente indicado. Há exceções, como a proibição de circulação de material fabricado ou alterado artificialmente entre as 72 horas anteriores e as 24 horas seguintes aos dias de votação. O manual também proíbe sistemas como ChatGPT, Gemini e DeepSeek de recomendar votos ou ranquear candidaturas.
As normas abrem caminho para que a Justiça remova perfis falsos ou automatizados que espalhem ataques e desinformação, e reforçam o dever de responsabilidade solidária das plataformas, obrigadas a monitorar ativamente e excluir postagens ilegais. Contudo, especialistas questionam a capacidade do TSE de efetivamente fazer cumprir essas regras. A escala, a velocidade e o grau de sofisticação da comunicação online tornam improvável que a Justiça Eleitoral consiga fazer o monitoramento de forma isolada, avalia Fabiano Garrido, diretor-executivo do Instituto Democracia em Xeque.
O problema estrutural: analfabetismo digital e a tempestade perfeita
As táticas de desinformação exploram uma grave chaga do Brasil: o analfabetismo digital. Segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional, chega a 25% a parcela dos brasileiros considerados analfabetos digitais, enquanto 53% têm algum grau de dificuldade com a internet. Para especialistas, a falta de letramento dos eleitores e a expansão descontrolada da inteligência artificial criam condições propícias para corroer a credibilidade de instituições e candidatos junto à população.
No caos informacional das redes, pode ser fácil detectar que um conteúdo é falso, mas aquilo provoca confusão e a impressão de que qualquer informação pode ser mentira. Esse efeito, a generalização da desconfiança, pode ser tão danoso quanto a própria desinformação, porque corrói a capacidade do eleitor de fazer escolhas informadas, não apenas por manipulação direta, mas por paralisia epistemológica.
Contrapontos, críticas e as incertezas que permanecem
Há limitações importantes na análise dos riscos. Primeiro, não há evidência de que deepfakes tenham alterado resultados eleitorais em qualquer eleição anterior, o que não significa que não possam fazer isso, mas que a tecnologia ainda não demonstrou capacidade demonstrável de mudar escolhas coletivas em escala. Segundo, a resposta institucional, embora imperfeita, existe: o TSE tem acumulado experiência desde 2018, e a sociedade civil tem desenvolvido ferramentas de verificação cada vez mais sofisticadas. Terceiro, a própria dinâmica das plataformas tem incentivado algumas formas de contenção, ainda que por razões distintas das preocupações democráticas.
Também há quem argumente que a concentração no problema tecnológico distrai de questões mais fundamentais: a qualidade da representação política, a distância entre candidatos e eleitorado e a desconfiança estrutural nas instituições. Nesse ponto de vista, deepfakes são sintoma de um problema mais profundo de legitimidade democrática, não sua causa primária.
O que não sabemos ainda sobre o impacto real da IA no voto
As incertezas são significativas. Não se sabe ao certo qual é o impacto real de um deepfake na opinião de um eleitor que já tem posições formadas. Não se sabe se o efeito é diferente em contextos de alta ou baixa polarização. Não se sabe se o eleitor consegue incorporar a informação de que um conteúdo foi produzido por IA em sua avaliação, ou se o impacto emocional ocorre independentemente do conhecimento sobre a origem. Essas questões são objeto de pesquisa ativa, mas os resultados disponíveis ainda não permitem conclusões definitivas.
Cenários e o que está em jogo para a democracia brasileira
Garantir que o processo eleitoral de 2026 ocorra com liberdade de escolha, confiança institucional e informação qualificada figura entre os principais desafios democráticos do período. O calendário prevê primeiro turno para 4 de outubro e eventual segundo turno para 25 de outubro, com disputa pelos cargos de presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais ou distritais.
O desafio é duplo: construir capacidades efetivas de resposta a operações de influência, incluindo mecanismos de transparência, auditoria de algoritmos e educação midiática, sem ceder à tentação de usar a narrativa de ameaça para restringir direitos civis ou concentrar poder. O sucesso institucional não será medido apenas pela ausência de episódios graves de manipulação, mas pela capacidade do sistema de manter a confiança do eleitor, mesmo quando os resultados não agradarem a todos.
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