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A moda brasileira entre a pressão internacional e a busca por sustentabilidade real

Com a COP30 como pano de fundo, o setor de moda no Brasil tenta equilibrar o impacto ambiental, a concorrência das plataformas asiáticas e a valorização da produção nacional.

May 02, 2026 - 21:10
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A moda brasileira entre a pressão internacional e a busca por sustentabilidade real

A moda no centro do debate climático

O ano de 2025 trouxe a moda para o centro do debate climático global, especialmente no Brasil, que sediou a COP30 em Belém. O setor é responsável por até 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, o que o torna uma das indústrias mais impactantes do planeta. A Vogue Brasil lembra que a moda é uma indústria movida pelo desejo, mas seu impacto vai muito além do simbólico, tratando-se de uma força econômica relevante, geradora de milhões de empregos, que articula cultura, território, inovação e desenvolvimento.

Diante desse cenário, a Fashion Revolution Brasil afirma que a crise climática está em curso e a moda, infelizmente, é uma das grandes protagonistas desse desastre, mas também pode ser parte da solução. A organização cobra das marcas compromissos climáticos sólidos que assegurem os direitos humanos e da natureza, sem prejudicar as pessoas mais vulneráveis à emergência climática.

O modelo de produção que agrava a crise

Se antes as marcas trabalhavam com quatro coleções anuais, geralmente uma por estação, hoje plataformas digitais de ultra fast fashion chegam a lançar até 10 mil novos produtos por dia. Essa lógica intensifica a ideia de novidade constante, estimula o consumo impulsivo e consolida um modelo baseado na velocidade extrema. A Vogue Brasil aponta que peças criadas para atender a um desejo imediato raramente são pensadas de forma circular, e o pós-uso, na maioria das vezes, não é considerado no processo criativo.

A concorrência internacional e a chamada taxa das blusinhas

Um dos debates mais intensos no setor de moda brasileiro em 2025 e 2026 envolve as plataformas internacionais de e-commerce, em sua maioria asiáticas, que operam com modelos de concorrência considerados desleais pela indústria nacional. Segundo Edmundo Lima, diretor executivo da ABVTEX, essas plataformas promovem uma concorrência desleal com a indústria e o varejo nacional, colocando em risco mais de 2 milhões de empregos no Brasil.

A assimetria se dá tanto no campo tributário quanto no regulatório. Edmundo explica que enquanto o varejo nacional arca com uma carga tributária próxima de 90%, empresas cross border pagam em torno de 45%, já incluída nesse percentual a chamada taxa das blusinhas, o imposto de importação que entrou em vigor para tentar equalizar a concorrência.

A fiscalização que não acompanha o volume

Além da questão tributária, há a questão da segurança dos produtos. Produtos importados por essas plataformas chegam diretamente à casa dos consumidores sem passar pelas mesmas fiscalizações exigidas das empresas brasileiras. Órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o Inmetro e a Anatel atuam de forma rigorosa sobre o varejo nacional, mas não exercem o mesmo controle sobre esses produtos. A Vogue Brasil alerta que produtos importados pelos sites internacionais de e-commerce, além da enorme quantidade de falsificações, podem comprometer a saúde e a segurança dos consumidores e provocar danos ao meio ambiente.

O descarte têxtil e a crise dos resíduos

O descarte inadequado de roupas gera impactos urbanos significativos, incluindo problemas de saúde pública, afetando sobretudo territórios já vulnerabilizados e intensificando a crise climática. Mesmo quando produzidas com matérias-primas biodegradáveis ou recicláveis, os sistemas de coleta, triagem e reciclagem existentes são insuficientes para lidar com o volume massivo de roupas colocadas no mercado todos os dias.

Em Gana, o mercado de Kantamanto recebe diariamente milhões de peças de roupas descartadas, provenientes principalmente de países do Norte Global. Esse fluxo massivo de resíduos têxteis afeta profundamente a economia e a cultura local. O problema se estende para outros países, inclusive o Brasil, que enfrenta a falta de soluções adequadas para lidar com o grande volume de peças descartadas.

O slow fashion como contraponto

Na contramão da produção em massa, o slow fashion, criado pela pesquisadora Kate Fletcher na Inglaterra em 2007, busca valorizar o tempo, a qualidade e os processos por trás das roupas. No Brasil, marcas como EZILDINHA, Osklen, Insecta Shoes e Renata e Heloísa Gutiérrez aparecem como exemplos de moda sustentável feminina premium que trabalham com seda pura, linho artesanal e materiais reciclados. O upcycling, prática de transformar resíduos em novos produtos, também ganha força entre consumidores que buscam peças com menor impacto ambiental.

Transparência e rastreabilidade na cadeia produtiva

A Fashion Revolution Brasil sustenta que a transparência é o primeiro passo para a revolução na moda. A organização questiona: quantas peças de roupa foram feitas? Onde? Por quem? Com quais materiais? Para onde vão nossas roupas depois do uso? A cobrança é para que as grandes empresas sejam transparentes quanto a todos os seus processos de produção, quem são os colaboradores, de que cor são e quais são os impactos socioambientais para produzir cada peça.

O Índice de Transparência da Moda Brasil, iniciativa da Fashion Revolution, monitora o quanto as marcas nacionais e internacionais divulgam informações sobre suas cadeias produtivas. Os resultados mostram que o setor ainda tem um longo caminho pela frente em termos de visibilidade sobre as condições de trabalho e os impactos ambientais em toda a cadeia.

Os limites da autorregulação

Uma questão central é até que ponto as marcas podem, por conta própria, transformar seus modelos de produção sem comprometer a competitividade. Especialistas apontam que a autorregulação tem limites claros quando o lucro imediato está em jogo. A pressão do consumidor, embora crescente, ainda é insuficiente para mudar a lógica de um setor que fatura trilhões globalmente e no qual a maioria das peças é produzida em países com baixíssima regulamentação trabalhista e ambiental.

Contrapontos: desenvolvimento versus sustentabilidade

Há vozes que advertem que a agenda ambiental na moda não pode desprezar os milhões de empregos gerados pela produção em escala. O acesso à moda também é uma questão social: roupas acessíveis permitem que populações de baixa renda se vistam com dignidade. Impor padrões sustentáveis muito elevados pode, paradoxalmente, restringir o acesso à moda para quem mais precisa de alternativas acessíveis.

Além disso, o protecionismo comercial disfarçado de sustentabilidade pode servir a interesses de grandes empresas nacionais que não operam necessariamente com práticas ambientais exemplares. A taxa das blusinhas, por exemplo, pode proteger a indústria nacional, mas não garante que a produção nacional seja ambientalmente responsável.

Cenários e o papel do Brasil no futuro da moda

O Brasil reúne características favoráveis para se posicionar como referência em moda sustentável, incluindo biodiversidade, culturas locais ricas e tradição artesanal. A Vogue Brasil menciona a importância da sociobioeconomia como ferramenta para o fortalecimento de comunidades tradicionais. No entanto, para que marcas e projetos nacionais consigam atuar em parcerias estruturadas, é fundamental a existência de políticas públicas de apoio e uma articulação efetiva entre os diferentes atores do setor.

Para Edmundo Lima, assegurar isonomia tributária e regulatória entre produtos nacionais e importados é um ponto decisivo para o futuro da moda no país. A chamada taxa das blusinhas não deve ser compreendida apenas como uma questão fiscal, mas como um instrumento estratégico para reduzir as assimetrias competitivas, aumentar a arrecadação, fortalecer a economia brasileira, proteger o consumidor, a saúde pública e o meio ambiente.

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