O estado da entrevista jornalística no Brasil em 2026
Como o formato entrevista está sendo redesenhado pela pressão das plataformas digitais, pela proteção de fontes e pelos novos protocolos de verificação.
O formato que resiste e se reinventa
A entrevista jornalística é, aparentemente, o formato mais simples da profissão: duas pessoas conversam, uma faz perguntas e a outra responde. Por trás dessa aparência de simplicidade, está um dos instrumentos mais poderosos do jornalismo para produzir revelações, responsabilização e contexto. Em 2026, esse formato enfrenta no Brasil uma tensão dupla: de um lado, a pressão das plataformas digitais por conteúdo rápido e compartilhável; de outro, a crescente dificuldade de proteger fontes e manter a profundidade analítica que distingue a entrevista jornalística da simples recolha de declarações.
Dados do relatório da organização Repórteres Sem Fronteira em parceria com a Universidade Estadual de Campinas, publicados em março de 2026, mostram que o ambiente de alta fragmentação da informação representou um risco para o jornalismo de apuração, especialmente para formatos que dependem de relações de confiança entre jornalista e entrevistado. A entrevista de profundidade, que historicamente exigia semanas ou meses de construção de relacionamento, compete agora com um fluxo constante de conteúdos curtos, o que força redações a reconsiderar quanto tempo e recursos podem ser dedicados a esse tipo de trabalho.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que o consumo de vídeos e conteúdos curtos cresceu significativamente nos últimos dois anos, enquanto o tempo médio dedicado à leitura de textos longos permanece estável entre o público que consome informação por meio de veículos de referência. Essa bifurcação do consumo cria um desafio específico para a entrevista jornalística: manter a profundidade que justifica o formato sem perder a acessibilidade que o torna relevante para novas audiências.
Os desafios da proteção de fontes no ambiente digital
Um dos temas mais sensíveis para quem trabalha com entrevistas jornalísticas no Brasil em 2026 é a proteção de fontes. Em um ambiente em que comunicações digitais podem ser interceptadas, metadados podem ser vendidos e sistemas de mensagens podem ser comprometidos, a questão de como garantir o anonimato de quem fornece informações sensíveis tornou-se tecnicamente mais complexa e eticamente mais urgente.
Relatos de profissionais que trabalham com inúmera reportagens indicam que cresceu o número de fontes que solicitam cuidados extremos antes de aceitar entrevistas, incluindo o uso de dispositivos desconectados da internet, encontros presenciais em locais não convencionais e a recusa de qualquer registro que possa ser vinculado à sua identidade. Esse comportamento, antes restrito a jornalistas que cobrem conflito ou organizações criminosas, passou a ser observado também em entrevistas sobre temas como financiamento político, contratos públicos e investigações ambientais.
Samira de Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, alertou em entrevista que o ambiente digital criou uma assimetria perigosa entre a capacidade de vigilância de governos e corporações e a capacidade de proteção dos profissionais. A transparência das plataformas, disse ela, é controlada por empresas multinacionais que operam sem responsabilidade clara, o que transforma qualquer comunicação digital em potencial objeto de monitoramento.
Protocolos de segurança e a fronteira entre paranoia e pragmatismo
Entrevistadores profissionais descrevem um espectro de práticas que vai da paranoia justificada ao pragmatismo necessário. Alguns profissionais adotaram rotinas de segurança que incluem a não utilização de celulares pessoais para agendar entrevistas com fontes sensíveis, a destruição regular de históricos de navegação e a utilização de redes privadas virtuais como padrão. Outros consideram que essas práticas podem criar uma barreira artificial entre o jornalista e a fonte, especialmente quando a fonte não tem o mesmo nível de conhecimento técnico.
Especialistas em segurança digital ouvidos pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo recomendam que cada redação desenvolva protocolos próprios, adaptados à realidade específica de cada veículo e ao perfil de cobertura. As orientações gerais incluem a utilização de sistemas de criptografia ponta a ponta para comunicações sensíveis, a preferência por encontros presenciais quando o tema envolve informações de alto risco e a destruição de registros quando a informação já tiver sido publicada e não houver mais necessidade de documentação adicional.
Entrevista em profundidade versus entrevista expressa
As redações brasileiras estão, aparentemente, divididas sobre o futuro do formato entrevista longa. Enquanto alguns veículos mantêm e inclusive expandem seus formatos de entrevista em profundidade, outros estão substituindo entrevistas extensas por conversas curtas adaptadas ao tempo das redes sociais. Essa bifurcação não é nova, mas tornou-se mais pronunciada em 2026.
No caso do horário nobre da televisão aberta, por exemplo, observa-se uma manutenção relativa do formato entrevista longa, especialmente em programas de jornalismo investigativo. Já nas plataformas digitais, a tendência é para vídeos curtos com trechos de entrevistas maiores, muitas vezes editados para destacar os momentos mais polêmicos ou mais virais. Essa dinâmica cria uma tensão entre o que é feito na entrevista original e o que é mostrado ao público, o que pode distorcer o sentido do que foi dito pelo entrevistado.
Pesquisadores da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo observam que essa prática pode gerar um efeito de descontextualização, em que declarações feitas dentro de um argumento mais amplo são apresentadas como se fossem posições acabadas do entrevistado. Essa distorção, que não é nova no jornalismo, ganha dimensões mais preocupantes quando se considera que os algoritmos das redes sociais tendem a amplificar conteúdos polêmicos e que empresas de inteligência artificial utilizam essas plataformas como fonte de dados para treinamento de sistemas.
A chegada da inteligência artificial às redações e seus efeitos sobre a entrevista
A inteligência artificial generativa está começando a alterar a prática da entrevista jornalística de formas que ainda não são plenamente compreendidas. Uma das aplicações mais concretas observadas no Brasil é a utilização de sistemas de transcrição automática, que reduzem drasticamente o tempo necessário para produzir uma versão escrita de uma entrevista em áudio ou vídeo. Ferramentas desse tipo já são utilizadas em diversas redações, com níveis variados de supervisão humana.
Mais polêmica é a utilização de sistemas de inteligência artificial para a produção de perguntas sugeridas aos entrevistadores. Alguns veículos experimentaram essa aplicação, argumentando que a ferramenta pode ajudar a cobrir lacunas de conhecimento do jornalista em áreas técnicas. Críticos dessa prática apontam que a utilização de perguntas geradas por sistemas automatizados pode criar um viés estrutural nas entrevistas, na medida em que o sistema tende a perguntar aquilo que tem dados para perguntar, e não necessariamente aquilo que é mais relevante do ponto de vista jornalístico.
Sérgio Lüdtke, coordenador de Projetos da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, alertou que a utilização de inteligência artificial na preparação de entrevistas pode gerar um efeito de homogeneização das perguntas, na medida em que sistemas diferentes tendem a produzir perguntas semelhantes quando alimentados com os mesmos dados. Isso poderia, paradoxalmente, reduzir a diversidade de abordagens na cobertura jornalística e criar uma falsa impressão de que todas as entrevistas sobre um dado tema são complementares quando, na verdade, são apenas repetitivas.
O uso de entrevistas para treinamento de sistemas de inteligência artificial
Uma questão que tem ganhado atenção entre organizações jornalísticas no mundo, incluindo no Brasil, é a utilização de conteúdo de entrevistas como dados de treinamento para sistemas de inteligência artificial. Quando um jornalista realiza uma entrevista e esse conteúdo é subsequentemente utilizado para treinar um sistema de inteligência artificial sem o consentimento do jornalista ou do entrevistado, surgem questões sobre propriedade intelectual, direitos trabalhistas e o futuro da profissão jornalística.
No Brasil, essa questão ainda não foi objeto de regulamentação específica, e a sua resolução depende tanto de avanços no campo do direito autoral quanto de decisões tomadas pelas próprias plataformas. Algumas organizações jornalísticas começaram a defender mecanismos de compensação semelhantes aos que estão sendo discutidos no contexto de conteúdo jornalístico e treinamento de inteligência artificial, mas o caso específico do conteúdo de entrevistas permanece amplamente não abordado.
Contrapontos: quando a entrevista é o problema
É necessário considerar também as críticas que são feitas ao formato entrevista em si. Alguns pesquisadores argumentam que a entrevista jornalística tradicional carrega um viés estrutural que favorece os entrevistados com maior visibilidade e maior capacidade de articulação, frequentemente em detrimento de vozes menos estabelecidas na escala de poder. Esse viés pode ser especialmente problemático em contextos de cobertura política, onde formadores de opinião com acesso desproporcional às redações conseguem moldar o noticiário de formas que não refletiriam necessariamente a realidade do que acontece no país.
Outros apontam que a entrevista jornalística pode servir como instrumento de legitimação de posições que não merecem ser tratadas com a mesma seriedade que se dedica a posições baseadas em evidências. O formato de pergunta e resposta cria uma ilusão de simetria entre duas posições, mesmo quando uma das posições é marginal ou não tem suporte factual. Esse problema, que não é novo, pode ser exacerbado pela lógica algorítmica das redes sociais, que tende a amplificar posicionamentos extremos.
Uma perspectiva adicional, menos frequente no debate público, é que o excesso de foco na entrevista como formato pode desviar a atenção de outras formas de jornalismo que podem ser mais adequadas para determinados contextos. O relatório da organização Repórteres Sem Fronteira enfatiza a importância de manter uma pluralidade de formatos jornalísticos, incluindo jornalismo de dados, jornalismo de soluções e jornalismo comunitário, em vez de permitir que o formato entrevista predomine apenas porque é aquilo que a maioria das organizações de mídia sabe fazer bem.
Impactos e cenários para o futuro próximo
Se as tendências atuais se mantiverem, é possível projetar alguns cenários para a entrevista jornalística no Brasil nos próximos anos. No cenário mais otimista, a entrevista em profundidade mantém-se como formato relevante para veículos que conseguem encontrar audiências dispostas a consumir conteúdo longo e que desenvolvem modelos de financiamento que não dependem exclusivamente de volume de tráfego. Nesse cenário, a inteligência artificial funciona como ferramenta de apoio à produção, permitindo que os jornalistas dediquem mais tempo à preparação conceitual e menos à transcrição automática.
No cenário mais pessimista, a entrevista jornalística é gradualmente substituída por conteúdos curtos que funcionam mais como elementos de engajamento do que como instrumentos de informação. Nesse cenário, o papel do jornalista entrevistador se reduz ao de curador de trechos, e a profundidade analítica que historicamente caracterizou o formato se perde. As fontes que hoje colaboram com investigações longas são as que mais têm a perder nesse cenário, na medida em que a substituição do formato longo pelo curto tende a reduzir o espaço disponível para contextualização de informações sensíveis.
Um terceiro cenário, mais provável no médio prazo, é aquele em que coexistem múltiplos formatos de entrevista, adaptados a diferentes plataformas e diferentes audiências. Nesse cenário, a entrevista longa coexiste com a entrevista curta, o vídeo com o áudio, o texto com o multimodal, e cada formato desempenha uma função específica dentro de uma estratégia editorial mais ampla. A questão central, nesse cenário, é garantir que a existência de múltiplos formatos não leve à perda do formato longo, que é aquele que mais condições oferece para a produção de jornalismo independente e aprofundado.
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