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Desmatamento na Amazônia em queda: o que os dados mostram e o que ainda falta para consolidar a redução

Dados do INPE e do Imazon indicam reduções significativas no desmatamento da Amazônia em 2025 e no início de 2026, mas especialistas alertam que a reversão de décadas de destruição florestal exige controle permanente, financiamento contínuo e enfrentamento das causas estruturais do desmatamento.

May 02, 2026 - 18:38
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Desmatamento na Amazônia em queda: o que os dados mostram e o que ainda falta para consolidar a redução

Os dados mais recentes e o que significam

O desmatamento na Amazônia Legal registrou, em 2025, a menor taxa dos últimos onze anos, segundo dados do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Ao todo, foram 5.796 quilômetros quadrados desmatados no ano, uma queda de 11,08% em relação a 2024, quando foram registrados 6.518 quilômetros quadrados. Os dados foram apresentados pelo INPE em fevereiro de 2026. O número representa a quarta queda consecutiva da taxa de desmatamento em relação ao ano anterior.

Dados do sistema Deter, também do INPE, mostram que as áreas sob alerta de desmatamento na Amazônia caíram 35,4% entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, passando de 2.296 quilômetros quadrados para 1.460 quilômetros quadrados. No primeiro trimestre de 2026, a queda em relação ao mesmo período do ano anterior foi de 17%, conforme dados do Imazon. O estado do Pará acumulou redução de 39% no período do ano Prodes. O Amazonas registrou queda de 30,1% no desmatamento no primeiro trimestre de 2026.

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) também informou que as áreas queimadas no Brasil caíram 39% em 2025, como resultado de um conjunto de ações de prevenção e controle de incêndios florestais. A expectativa do INPE é de que, em 2026, o Brasil alcance a menor taxa de desmatamento na Amazônia desde o início da série histórica.

O Plano Clima e a agenda ambiental do governo

Em março de 2026, o governo federal lançou o Plano Clima, que estabelece a meta de zerar as emissões de CO2 até 2050 e promove a adaptação aos efeitos das mudanças climáticas por meio de estratégias de mitigação. O plano foi apresentado em um momento de maior visibilidade internacional para a agenda ambiental brasileira, após um período de enfraquecimento das políticas de controle do desmatamento entre 2019 e 2022.

Paralelamente, o Brasil retomou protagonismo em fóruns climáticos internacionais, com destaque para a COP da Biodiversidade e para a cúpula do clima realizada no primeiro trimestre de 2026. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tem defendido publicamente que a pauta ambiental não é um obstáculo ao desenvolvimento, mas uma condição para ele. Em audiência no Senado, Marina afirmou que ao defender o meio ambiente, o governo está defendendo o agronegócio, a indústria e os interesses estratégicos do Brasil, porque tudo passa pelo meio ambiente.

Para especialistas, a retomada de políticas de comando e controle, como operações de fiscalização do Ibama e do ICMBio, combinada com ações de ordenamento territorial e reconhecimento de direitos territoriais indígenas, contribuiu para a redução do desmatamento. Contudo, alertam que a sustentabilidade dessas reduções depende da manutenção dos investimentos em fiscalização e da continuidade das políticas independentemente de mudanças de governo.

A economia da floresta em pé

Um estudo internacional publicado na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, estimou em mais de R$ 100 bilhões por ano o valor dos serviços ecossistêmicos prestados pela Amazônia, com destaque para a regulação do regime de chuvas que beneficia a agricultura e a economia brasileira. O estudo reforça a ideia de que a floresta em pé funciona como uma fábrica de chuvas, em que cada metro quadrado de floresta contribui com cerca de 300 litros de água por ano, volume relevante para aproximadamente 85% da produção agropecuária do país.

Outra pesquisa, conduzida pelo Instituto Serrapilheira, mostrou que as Terras Indígenas da região amazônica influenciam as chuvas que abastecem aproximadamente 80% das áreas de atividades agropecuárias brasileiras, contribuindo para 57% da renda agropecuária nacional. Esses dados subsidiam o argumento de que a proteção da floresta não é um custo, mas um investimento com retorno econômico mensurável.

Existem ainda iniciativas como o programa Floresta+, do MMA, financiado pelo Fundo Verde para o Clima (GCF), que busca criar alternativas econômicas para comunidades locais que dependem da floresta. Contudo, a escala desses programas ainda é limitada quando comparada ao tamanho das pressões econômica e fundiária que historicamente incentivaram o desmatamento.

Contrapontos, limites e o que os dados ainda não mostram

Apesar da queda expressiva no desmatamento, especialistas alertam para fatores que limitam a análise. A degradação florestal, definida como a perda de qualidade da floresta sem supressão total da cobertura, não é plenamente captada pelos sistemas de monitoramento por satélite atualmente em uso. Alguns estudiosos argumentam que os números de desmatamento registrado pelo Prodes podem subestimar processos de degradação progressiva que também comprometem a funcionalidade ecológica da floresta.

Além disso, a concentração da redução em determinadas regiões e tipos de propriedade levanta questões sobre a durabilidade do padrão. Parte da queda do desmatamento está associada a operações de fiscalização em áreas públicas não demarcadas, mas o problema permanece em propriedades privadas, onde a aplicação da legislação ambiental enfrenta desafios de capacidade inspectória. O avanço de cadeias produtivas ilegais, como a mineração e a grilagem de terras, continua sendo uma pressão sobre a floresta, especialmente em áreas de fronteira agrícola.

Também há debate sobre a relação entre a queda do desmatamento e fatores climáticos, como fenômenos naturais, que podem ter contribuído para a redução registrada em alguns períodos. A separação entre o efeito de políticas públicas e a variabilidade climática é metodologicamente complexa e ainda não está completamente resolvida nos estudos disponíveis.

Cenários para os próximos anos

O cenário mais favorável seria a continuidade da tendência de queda, apoiada em manutenção dos investimentos em fiscalização, expansão de políticas de ordenamento territorial e crescimento de mecanismos de pagamento por serviços ambientais. Se o Brasil mantiver o ritmo atual de redução até 2030, poderia atingir a meta de desmatamento ilegal zero assumida internacionalmente, embora a viabilidade dessa meta dependa de fatores políticos e econômicos que ainda não estão garantidos.

O cenário de risco é uma reversão da tendência caso haja enfraquecimento das políticas de comando e controle, redução de recursos para órgãos de fiscalização ou pressão renovada por expansão agrícola em áreas florestais. Historicamente, o desmatamento na Amazônia respondeu a ciclos políticos e econômicos, com aumentos significativos em períodos de menor regulação. Manter a floresta em pé depende de um pacto político de longo prazo que transcenda governos específicos.

O ano de 2026, por ser ano eleitoral, adiciona incerteza ao cenário. A experiência histórica mostra que períodos eleitorais podem acelerar a aprovação de projetos de lei que ampliam a fronteira agrícola ou flexibilizam normas ambientais, na medida em que grupos econômicos buscam garantir vantagens antes de possíveis mudanças de governo. O equilíbrio entre a agenda ambiental e as demandas do setor produtivo será um dos desafios centrais para qualquer administração que assumir em 2027.

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