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Trump na China: o que a visita de Pequim revelou sobre os limites dos acordos comerciais globais

A visita de Donald Trump à China em maio de 2026 terminou com anuncios pomposos, mas sem avanços estruturais. A encomenda de 200 aeronaves Boeing, promessas de compras agrícolas e a criação de um Conselho de Comércio bilateral contrastam com a ausência de compromissos vinculantes e a manutenção das tarifas elevadíssimas que sustentam a guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo.

May 17, 2026 - 15:00
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Trump na China: o que a visita de Pequim revelou sobre os limites dos acordos comerciais globais
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O que Trump levou a Pequim e o que trouxe de volta

Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pousou em Pequim em meados de maio de 2026 para uma cúpula com o presidente chinês Xi Jinping, a expectativa de analistas e mercados era grande. O chanceler americano havia declarado, nas semanas anteriores, que a viagem seria uma oportunidade para consolidar acordos comerciais significativos. Os mercados operavam com probabilidades elevadas de anúncios relevantes: uma probabilidade de 86% no portal Kalshi para uma encomenda de aeronaves Boeing, de 81% para a prorrogação da trégua tarifária firmada em outubro de 2025 e de 69% para a criação de um Conselho de Comércio bilateral.

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Após três dias de encontros, a soma dos anúncios oficiais ficou aquém do que os investidores haviam precificado. A encomenda inicial de aeronaves Boeing ficou em 200 unidades — bem abaixo do que analistas do Credit Suisse e do Barclays projetavam como possibilidade de encomendas em faixa de três dígitos de bilhões de dólares. As ações da Boeing recuaram 3,8% na sexta-feira seguinte aos anúncios, um sinal claro de que o mercado considerou o resultado medíocre. A encomenda de veículos aéreos foi descrita pela própria empresa como "a reabertura do mercado chinês para pedidos de aeronaves Boeing", o que, para críticos, representa menos uma vitória comercial do que a reversão de um bloqueio que nunca deveria ter sido imposto.

Além das aeronaves, Trump anunciou que a China concordou em comprar "bilhões de dólares em soja" e produtos agrícolas americanos, além de petróleo dos Estados Unidos. A criação de um Conselho de Comércio e de um Conselho de Investimento bilateral foi apresentada pela Casa Branca como uma estrutura permanente para gerir a relação econômica entre os dois países.

A trégua tarifária que nunca saiu do papel

O dado mais relevante da viagem, no entanto, foi aquilo que não mudou. As tarifas americanas sobre produtos chineses permanecem em patamares de até 145%, enquanto a China mantém sobretaxas de até 125% sobre bens americanos. A trégua estabelecida em outubro de 2025 — quando os Estados Unidos reduziram suas tarifas sobre a China de 20% para 10%, e a China suspendeu controles de exportação de terras raras — foi prorrogada tacitamente. Mas não houve nenhum acordo formal para reduzir esses níveis.

Segundo a análise da consultoria Eurasia Group, nenhum dos dois lados apresentou uma declaração clara com detalhes sobre os alegados acordos. "Parece que ambos os lados estão dizendo que conseguiram algo, mas ainda não chegamos lá", declarou David Meale, responsável pela prática da China na consultoria. A ausência de um comunicado conjunto com números, cronogramas e mecanismos de verificação transformou os anúncios em compromissos verbais — categoria que, historicamente, tem se mostrado frágil no comércio entre as duas potências.

A própria história da aplicação das tarifas demonstra a arbitrariedade com que foram impostas. Em abril de 2025, a administração Trump elevou as tarifas sobre produtos chineses para uma média de 127,2%, segundo dados do Peterson Institute for International Economics. A redução parcial para 10% no acordo de outubro foi interpretada por muitos analistas como uma pausa tática, não uma reversão estratégica. A guerra comercial não foi resolvida: foi colocada em modo de espera.

O precedente de 2017 e os compromissos que se dissolveram

Um dos elementos que mais pesam sobre a credibilidade dos anúncios de maio de 2026 é a memória do que ocorreu após a viagem de Trump à China em 2017. Naquela ocasião, o governo chinês prometeu investimentos de quase 84 bilhões de dólares pela empresa estatal China Energy Investment Corporation, incluindo a construção de um complexo de gás natural em West Virginia. Anos depois, o projeto foi abandonado sem penalidades contratuais e sem qualquer verificação pública do que aconteceu com os compromissos assumidos.

A especialista Wendy Cutler, antiga negociadora do Escritório do Representante Comercial dos EUA e atual vice-presidente da Asia Society Policy Institute, declarou à CBS News que aguardava anúncios mais substanciais. "Eu esperava que a China anunciasse mega-compras de agricultura, energia e aeronaves. Até agora, não parece que Trump e sua equipe tenham muito a demonstrar dessa visita", afirmou. A avaliação de Cutler é corroborada por análise do noticiário especializado, que señala que a visita produziu mais comunicados do que contratos.

Quem paga a conta da guerra comercial: o comércio global em queda livre

Antes mesmo da visita de maio de 2026, o comércio entre Estados Unidos e China já havia entrado em colapso. Dados do PBS NewsHour e da Associated Press apontam que a trégua de outubro de 2025 foi celebrada precisamente porque o fluxo comercial entre os dois países estava em "queda livre". As altas tarifas mútuas impostas criam custos administrativos elevados e incerteza jurídica para empresas em ambos os países, que passaram a redesenhar cadeias de suprimento inteiras — muitas vezes transferindo produção para países do Sudeste Asiático, México ou Europa Oriental.

O impacto não se limitou às duas maiores economias. A reorganização das cadeias produtivas globais provocou efeitos em cascata em economias emergentes, incluindo o Brasil. A redução do acesso ao mercado chinês por empresas americanas abriu espaço para concorrentes de outros países, mas a incerteza geral sobre a política comercial internacional acabou freando investimentos em setores que dependem de exportação. O Fundo Monetário Internacional estimou, em relatórios anteriores, que a fragmentação comercial derivada das guerras tarifárias poderia custar à economia global até 7% do PIB em longo prazo, caso se intensificasse.

Aviação como metáfora: Boeing e a indústria que ficou no meio do fogo cruzado

A Boeing ilustra de forma particularmente clara como a guerra comercial afeta setores específicos. A empresa basicamente perdeu acesso ao mercado chinês entre 2019 e 2025, em meio às tensões políticas e à disputa comercial. A encomenda de 200 aeronaves anunciada em maio de 2026 é significativa, mas não resolve o hiato de anos em que a Airbus europeia preenchia o espaço deixado pela fabricante americana. A China tem contratos pendentes com a Airbus e vinha expandindo sua frota com aeronaves europeias precisamente durante o período em que estava impedida de comprar Boeing.

Para a Boeing, a visita representou a reabertura de um mercado estratégico, não uma vitória esmagadora. Analistas da Capital Economics observaram que a quantidade de aeronaves encomendadas ficou "abaixo das expectativas" do mercado antes da viagem. A reação acionária negativa indica que os investidores interpretaram o anúncio como um resultado abaixo do potencial — uma leitura que se alinha ao ceticismo geral sobre a solidez dos compromissos comerciais chineses.

O efeito colateral para o Brasil: entre tarifas americanas e cotas chinesas

Se a guerra tarifária entre Estados Unidos e China tem protagonistas claros, seus efeitos colaterais afetam economias que não estão diretamente envolvidas na disputa. O Brasil é um caso emblemático. Em maio de 2026, o país se viu em uma conjunção incomum de pressões comerciais de dois lados simultaneamente.

Do lado norte-americano, a reunião entre o presidente Lula e Donald Trump na Casa Branca, em 7 de maio, colocou em evidência a ameaça de novas tarifas sobre produtos brasileiros. Os Estados Unidos impuseram tarifas a diversos parceiros comerciais como instrumento de política externa comercial, e o Brasil não estava imune a essa dinâmica. Após três horas de reunião, Lula e Trump orientaram seus ministros a resolverem a questão das tarifas em 30 dias. Foi criado um grupo de trabalho conjunto, envolvendo o MDIC, o Ministério das Relações Exteriores e o Departamento de Comércio dos EUA, para debater não apenas tarifas, mas também o encerramento de uma investigação sob a Seção 301 — o mecanismo legal que permite aos EUA investigar práticas comerciais consideradas injustas e aplicar contramedidas.

Do lado chinês, a situação é igualmente complexa. A China impôs, no início de 2026, cotas de importação de carne bovina para proteger seus produtores domésticos. A cota anual fixada para o Brasil é de 1,106 milhão de toneladas — e o governo chinês informou, em 10 de maio, que o Brasil já havia utilizado 50% desse volume. A velocidade record de preenchimento da cota levanta preocupações sobre um cenário de "pós-cota", em que as exportações brasileiras ficariam sujeitas a uma sobretaxa de 55% sobre a tarifa de importação vigente. A Associação Brasileira de Frigoríficos projeta uma queda de aproximadamente 10% nas exportações de carne bovina brasileira em 2026 justamente por conta dessas medidas de salvaguarda.

Contrapontos: entre o otimismo oficial e o ceticismo factual

É importante reconhecer que os resultados da viagem de Trump à China não são exclusivamente negativos. A prorrogação da trégua tarifária, mesmo que não vinculante, interrompeu uma escalada que poderia ter sido mais intensa. A criação de um Conselho de Comércio e de um Conselho de Investimento representa, ao menos no formato institucional, um canal de diálogo permanente que não existia antes. A própria Boeing conseguiu demonstrar que o mercado chinês não está permanentemente perdido.

Por outro lado, a história das relações comerciais EUA-China nos últimos anos sugere cautela. Compromissos verbais, metas de compra e cronogramas vagos têm se revelado insuficientes para reverter estruturas comerciais profundas. A analista Erica Downs, especialista em política energética da China na Universidade Columbia, sintetizou a situação com clareza: "A alegação de que a China quer comprar mais energia dos EUA vai agradar Trump, mas não vincula a China a nada."

Além disso, a guerra tarifária se insere em um contexto mais amplo de rivalidade estratégica que envolve tecnologia, influência geopolítica e competição por cadeias produtivas. O próprio Trump indicou, durante a viagem, que pretendia discutir a guerra no Irã com Xi Jinping — uma pauta que, segundo analistas, pode ter tanta ou mais importância estratégica para Washington quanto os próprios acordos comerciais. O entrelaçamento entre geopolítica e comércio torna mais difícil a separação entre avanços comerciais genuínos e gestos diplomáticos de natureza essencialmente simbólica.

Cenários e síntese: o que a visita de Pequim realmente revela

A visita de Donald Trump à China em maio de 2026 oferece um mostruário de como as negociações comerciais entre grandes potências operam atualmente: anúncios de grande visibilidade, números impressionantes de superfície, mas compromissos legais frágeis e mecanismos de verificação quase inexistentes. A encomenda de Boeing, as promessas de soja e a criação de conselhos bilaterais são reais, mas insuficientes para reverter a estrutura de tarifas que mantém o comércio entre as duas maiores economias do mundo severamente distorcido.

Para o Brasil, a lição é dupla. De um lado, a pressão tarifária americana exige diplomatas ágeis e uma política comercial ativa — como demonstrou a reunião de 30 dias proposta por Lula a Trump. De outro, a dependência do mercado chinês para commodities agrícolas expõe a economia brasileira a instrumentos de defesa comercial que Pequim utiliza sem hesitação, como as cotas de importação. A diversificação de parceiros comerciais e a redução da exposição a instrumentos de política comercial alheios são desafios que exigem atenção renovada.

O resultado mais honesto da viagem de Trump a Pequim talvez seja justamente a sua incapacidade de produzir resultados definitivos. Em um sistema comercial internacional baseado em regras, a ausência de vinculação jurídica dos compromissos assumidos é uma fragilidade. Em um sistema baseado em relações de poder, a visita confirma que as tarifas são um instrumento de coerção permanente, não uma ferramenta de negociação com prazo de validade. A trégua continua. A guerra comercial, também.

Trump na China: o que a visita de Pequim revelou sobre os limites dos acordos comerciais globais
Imagem gerada por inteligência artificial — MiniMax

Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial generativa como ferramenta de assistência à redação e de forma automatizada. As análises e opiniões expressas não constituem aconselhamento jurídico.

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