Juros em 15,75% e desaceleração: a economia brasileira em 2026 entre choques internos e externos
Com a Selic no maior nível desde 2006 e o PIB crescendo menos que o esperado, o Brasil enfrenta um ano de contrastes entre setor exportador e mercado interno, com incertezas eleitorais e geopolíticas no horizonte.
O aperto monetário que não dá trégua
A economia brasileira iniciou 2026 com um dos maiores desafios dos últimos anos no campo monetário. A taxa básica de juros, a Selic, chegou a 15,75% ao ano em maio, após um corte de apenas 0,25 ponto percentual na reunião de abril do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Esse patamar representa o maior nível desde 2006 e mantém o Brasil em um ciclo contracionista que se arrasta desde o início de 2022, quando os juros ainda estavam em patamares de um dígito.
O raciocínio por trás da manutenção de juros altos é simples: conter a pressão inflacionária que, embora em trajetória de queda, ainda permanece acima da meta oficial de 3% ao ano. O Banco Central projeta inflação de 4,10% para 2026, conforme o Boletim Focus. Mas a lógica do aperto monetário carrega um custo direto sobre a atividade econômica, especialmente sobre setores que dependem de crédito para funcionar.
Segundo economistas ouvidos pela CNN Money, o principal canal de transmissão dos juros altos é exatamente o crédito. Famílias e empresas enfrentam financiamentos mais caros, o que reduz a demanda por empréstimos voltados à aquisição de bens duráveis, como veículos e eletrodomésticos, além de comprometer investimentos produtivos. Esse mecanismo é particularmente perverso para pequenos negócios, que costumam depender de linhas de crédito para capital de giro.
A desaceleração que já é visível nos números
O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro ficou em 2,3% em 2025, uma desaceleração frente aos 3,4% registrados em 2024. A queda era esperada por analistas, mas o ritmo do desaquecimento levantou alertas sobre a capacidade da economia de gerar renda e emprego de forma sustentada. O Banco Central projeta avanço de 1,6% para 2026, enquanto o mercado converge para algo ao redor de 1,8%, segundo o Boletim Focus.
Para o JPMorgan, o início de 2026 trouxe uma surpresa positiva, com a atividade econômica crescendo a uma taxa anualizada de 3,6% no primeiro trimestre. Porém, o próprio banco reconhece que essa força inicial é explicada quase integralmente por um efeito estatístico de carregamento, não por uma melhora estrutural. A projeção da instituição para o ano foi elevada de 1,3% para 1,5%, mas com o aviso de que o fôlego deve se esgotar a partir do segundo trimestre.
O ministro da Fazenda reconheceu publicamente que os juros altos contribuíram para a desaceleração do PIB em 2025, em um reconhecimento raro de que a política monetária contracionista tem custo sobre o crescimento. A avaliação do governo é de que o cenário internacional adverso, com juros elevados nos países desenvolvidos e incertezas geopolíticas, limita o espaço para uma redução mais agressiva da taxa básica.
Os setores que sustentam e os que sofrem
A leitura setorial do desempenho econômico em 2025 revela uma divisão marcante. A agropecuária e a indústria extrativa registraram expansão de 11,7% e 8,6%, respectivamente, enquanto os segmentos mais ligados ao mercado interno e ao crédito sentiram o peso dos juros elevados. O agronegócio foi impulsionado por um cenário externo favorável, com a valorização de commodities agrícolas e a capacidade de negociar rapidamente com outros países mesmo em um ambiente de tensões comerciais globais.
O crescimento industrial de 2025, de 1,4%, foi concentrado em atividades primárias e exportadoras. Setores como bens duráveis e manufaturas, mais dependentes de financiamento e do consumo das famílias, registraram desempenho mais fraco. Gesner Oliveira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que esse padrão é recorrente na economia brasileira: em ciclos de aperto monetário, setores exportadores e menos dependentes de financiamento tendem a sustentar o crescimento, enquanto a atividade interna perde fôlego.
Silvia Matos, pesquisadora do FGV Ibre, alerta que o quadro fiscal dos governos subnacionais também merece atenção. Em 2025, estados e municípios registraram o pior resultado fiscal em mais de uma década, com crescimento de despesas acima da receita. Esse desequilíbrio pode limitar a capacidade de reação dos governos regionais diante de novos choques e transferindo efeitos para o cenário nacional.
A guerra no radar e o petróleo como fator desconhecido
O cenário para 2026 mudou de forma abrupta em poucos dias no final de março. Os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã, e Teerã respondeu fechando o Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde circula parte significativa da produção global de petróleo. O preço da commodity disparou, criando um medo inflacionário que reacendeu dúvidas sobre a trajetória dos juros no Brasil e no mundo.
O Estrecho de Ormuz é a principal via de navegação para o petróleo do Golfo Pérsico, e qualquer interrupção no fluxo tem impacto direto sobre os preços internacionais de energia. Historicamente, choques do petróleo são importadores de inflação para economias que não são auto-suficientes em energia, como é o caso do Brasil, que ainda importa derivados mesmo sendo um grande produtor de petróleo bruto.
Para o economista Felipe Salto, da Warren Investimentos, ainda é cedo para dimensionar os impactos de uma escalada do conflito. No curto prazo, o Brasil poderia até se beneficiar de preços mais altos do petróleo por meio de empresas do setor que atuam na bolsa. Mas, em caso de escalada prolongada, os efeitos sobre a inflação e a confiança internacional tenderiam a ser negativos para todos os agentes econômicos.
Os dilemas da política fiscal e das eleições
A condução da política fiscal é um dos pontos de discídia entre economistas e analistas de mercado. O governo federal manteve uma política fiscal expansionista em 2025, com aumento de gastos, o que, na visão de Silvia Matos, ficou dentro do esperado e não justificou surpresas nas projeções. Porém, a pesquisadora do FGV alerta que a política fiscal precisa ser mais contracíclica para que a redução dos juros aconteça de forma sustentada.
O banco JPMorgan reforça que a política orçamentária segue como o principal fator de risco para o equilíbrio entre crescimento e inflação no Brasil. Medidas do governo para mitigar os efeitos do choque do petróleo, estimular o crédito e reduzir o endividamento das famílias podem suavizar parte do impacto negativo sobre a atividade, mas também adicionam complexidade ao trabalho do Banco Central, que precisa equilibrar pressões de preços com a demanda agregada.
Silvia Matos destaca que não há certeza sobre a velocidade do ajuste fiscal no próximo governo, especialmente em um ano eleitoral. Essa incerteza se reflete nas projeções de mercado, que tendem a precificar um prêmio de risco adicional para o cenário brasileiro.
Incerteza eleitoral como variável de mercado
Para 2026, as eleições são uma variável que pesa sobre as expectativas do mercado. O comportamento do governo ao longo do ano pode ser influenciado pelo calendário político, com medidas de estímulo econômico sendo adotadas ou postergadas conforme a conjuntura eleitoral. Analistas apontam que, se pesquisas indicarem ascensão de candidatos com perfis fiscais menos convencionais, o mercado pode ajustar expectativas de forma abrupta.
O estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz, avalia que os grandes vetores para a economia brasileira em 2026 são mais internos do que externos, apesar da atenção merecida ao cenário geopolítico. Essas questões mexem com os preços, mas os fatores domésticos, como a política fiscal e o comportamento do Banco Central, devem continuar sendo determinantes para o resultado do ano.
O que os dados ainda não respondem
A projeção do Banco Central para a Selic no fim de 2026 está em 12,50%, conforme o Boletim Focus mais recente, o que implica um ciclo de cortes ao longo do segundo semestre. Porém, a incerteza sobre o ritmo desse processo permanece elevada. O JPMorgan revisou sua expectativa de corte de 50 pontos-base para 25 pontos-base na reunião de abril e na de junho, reflexo da inflação mais alta que o esperado e da resiliência da atividade no início do ano.
Existem limites claros na análise do cenário. Não é possível cravar se o conflito no Oriente Médio vai se intensificar ou arrefecer, nem qual será a resposta do Banco Central a um novo choque de petróleo. Da mesma forma, o comportamento do próximo governo no campo fiscal permanece uma variável desconhecida, especialmente considerando o ano eleitoral.
A Fitch Ratings mantém sua estimativa de crescimento do PIB real do Brasil em 1,9% para 2026, mesma projeção de março. A agência avalia que a Selic deve ceder de 15% ao ano para 12% até o fim de 2026, com novos cortes em 2027. A manutenção da credibilidade da política monetária é, para a Fitch, um fator positivo que limita o risco de uma alta mais forte dos juros no médio prazo.
Contrapontos e limites da análise
Há uma visão otimista que destaca fatores positivos estruturais: o agronegócio segue competitivo no cenário internacional, a reforma tributária em implementação pode reduzir distorções no médio prazo, e a economia demonstra resiliência em alguns setores. Para essa corrente, o aperto monetário é temporário e a tendência de queda dos juros sustentará uma recuperação gradual da atividade.
Por outro lado, críticos alertam que o nível de endividamento de empresas e famílias continua elevado, o que significa que mesmo juros mais baixos não devem liberar imediatamente o consumo represado. A dependência do fluxo estrangeiro para financiar o déficit em conta corrente também expõe a economia a reversões abruptas caso o cenário internacional mude.
A análise aqui apresentada não tem a pretensão de cravar qual cenário vai prevalecer. Os dados disponíveis até maio de 2026 indicam uma economia em moderação, com pontos de luz no setor exportador e sombras no mercado interno. O tamanho do ajuste fiscal, o comportamento eleitoral e a evolução do conflito geopolítico são variáveis que ainda vão se definir ao longo do segundo semestre e que vão determinar se o Brasil cresce perto de 1,5% ou se desvia significativamente desse número.
Cenários e síntese
Os dados econômicos disponíveis até o início de maio de 2026 configuram um cenário de crescimento moderado com desafios persistentes. A Selic em 15,75% ao ano segue como o principal freio para a atividade, especialmente para setores voltados ao mercado interno e dependentes de crédito. A desaceleração em relação a 2024 é um fato consumado, e o fantasma de um novo choque de petróleo adiciona incerteza a um panorama já desafiador.
No lado positivo, o setor agropecuário e a indústria extrativa seguem como pilares de sustentação do crescimento, e o início de 2026 trouxe surpresas positivas na atividade que, embora possam ser temporárias, indicam uma economia com mais resiliência do que muitos antecipavam. A entrada de capital estrangeiro, observada nos mercados financeiros, também sugere que investidores internacionais ainda veem valor no Brasil, desde que o básico da política monetária e fiscal se mantenha em curso.
O desafio central permanece na política monetária. A transição para juros menores depende de um ambiente de inflação cedendo, o que, por sua vez, depende parcialmente de fatores externos, como o preço do petróleo. A profundidade e a velocidade dessa travessia vão moldar o resultado final do PIB em 2026 e as condições de vida de milhões de brasileiros que dependem do crédito para consumir, investir ou empreender.
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