Energia renovável no Brasil: o desafio de liderar a transição sem deixar a rede para trás
O Brasil consolida posição de destaque global em energias renováveis, mas enfrenta desafios regulatórios, de infraestrutura e de custo que colocam em dúvida a sustentabilidade da trajetória.
O marco histórico de agosto de 2025 e o que ele revela
Em agosto de 2025, o Brasil alcançou um feito que seria impensável uma década atrás: pela primeira vez desde o início dos registros, a energia eólica e solar geraram, em conjunto, mais de um terço de toda a eletricidade do país no mês. O dado foi documentado pelo relatório da Ember, organização internacional especializada em análise energética, e mostra que a energia solar passou de uma participação de apenas 2,2% em agosto de 2020 para 13% em agosto de 2025, enquanto a eólica avançou de 15% para 21% no mesmo período. No acumulado de 2024, as duas fontes juntas representaram 24% da geração elétrica nacional, mais do que o dobro da participação registrada cinco anos antes.
A importância desse momento vai além do número em si. Trata-se de uma mudança estrutural na matriz elétrica brasileira, tradicionalmente dominada por hidrelétricas. A queda na participação hidrelétrica para 48% em agosto de 2025 representa apenas o segundo mês na história em que a fonte responde por menos da metade da geração, reflexo tanto da redução das chuvas quanto do crescimento acelerado das fontes alternativas. Para o sistema elétrico, a transformação é profunda na forma como a oferta de eletricidade é organizada, integrada e balanceada.
Investimento global recorde e a posição do Brasil
O investimento global em transição energética atingiu o volume recorde de US$ 2,3 trilhões em 2025, com avanço de 8% em relação ao ano anterior, segundo relatório da BloombergNEF. O Brasil participa desse movimento como um dos líderes mundiais em proporção de fontes renováveis na sua matriz elétrica. Com 88% da eletricidade gerada a partir de fontes limpas, o país possui uma das matrizes mais verdes do planeta, quatro vezes superior à média mundial.
No entanto, a posição de liderança brasileira coexiste com vulnerabilidades. O planejamento de longo prazo do governo federal, materializado na meta de alcançar 81% de fontes renováveis na matriz energética até 2055, depende de investimentos contínuos em transmissão, armazenamento e modernização da rede. A meta é ambiciosa e exige coordenação entre políticas setoriais, regulação tarifária e atração de capital privado, uma combinação que ainda não está garantida.
Os gargalos de infraestrutura e armazenamento
Um dos maiores desafios técnicos da expansão renovável no Brasil é o armazenamento de energia. Com a crescente participação de fontes intermitentes como solar e eólica, o sistema elétrico precisa de mecanismos de balanceamento que, no cenário brasileiro, historicamente foram fornecidos pelas hidrelétricas com reservatórios. Contudo, a redução das chuvas nos últimos anos e a maior demanda de eletricidade reduziram a capacidade de as usinas hidrelétricas atuarem como respaldo natural.
Eventos recentes, como seminários realizados em Brasília com participação de especialistas e representantes do setor, têm alertado para o risco de o Brasil perder a liderança na América Latina em armazenamento de energia por inércia regulatória. A ANEEL reconhece a questão e trabalha em normas para o tema, mas o ritmo de avanço regulatório é considerado lento por atores do setor. Enquanto isso, países como Chile e México avançam em políticas de armazenamento que podem atrair investimentos para seus mercados.
A regulação da geração distribuída e as tensões setoriais
A Agência Nacional de Energia Elétrica incluiu a geração distribuída entre as atividades da Agenda Regulatória 2025-2026, com previsão de tratamento normativo do tema ao longo de 2026. Na prática, isso significa que a agência está debatendo regras mais detalhadas para usinas solares de pequeno e médio porte conectadas à rede de distribuição, que cresciam até então sob o guarda-chuva da Lei 14.300/2022, que estabeleceu o marco legal da geração distribuída.
Entre os pontos em discussão estão medidas para coibir ampliações irregulares de potência em usinas solares distribuídas e a criação de mecanismos de transição para créditos de energia gerados por micro e minigeradores. A proposta da ANEEL, que deve passar por consulta pública, busca resolver incertezas deixadas pela legislação atual, mas enfrenta resistência de parcelas do setor que temem mudanças retroativas nas regras de compensação de energia, o sistema que permite ao consumidor compensar créditos de energia gerada.
O impacto no consumidor e no mercado livre
Um dos efeitos mais concretos das tensões regulatórias pode ser sentido no bolso do consumidor. Em maio de 2026, pela primeira vez no ano, foi acionada a bandeira tarifária amarela, indicando custo adicional na conta de luz. O movimento revela que, mesmo em um cenário de matriz renovável em expansão, o custo da eletricidade para o consumidor final permanece sujeito a pressões de curto prazo, ligadas a fatores como nível dos reservatórios, preços de combustíveis e necessidade de acionar usinas térmicas.
No mercado livre de energia, os preços dispararam entre 2024 e 2026: houve aumento de 59% para contratações de longo prazo e de 121% para compras com previsão de entrega em três meses. O fenômeno reflete a combinação de maior demanda, incertezas sobre a oferta e custos de transmissão, e tem impulsionado consumidores industriais a buscar garantias mais longas e alternativas próprias de geração.
Contrapontos: a euforia renovável tem fundamentos sólidos?
A narrativa de sucesso das energias renováveis no Brasil merece ser matizada por algumas considerações. Primeiro, a expansão acelerada da solar e da eólica ocorreu em grande medida por causa da queda global de custos de equipamentos, especialmente painéis solares, e não exclusivamente por políticas públicas eficazes. O Brasil beneficiou-se de um ciclo global de barateamento que pode não se repetir na mesma intensidade na próxima década.
Segundo, a participação ainda majoritária de hidrelétricas na matriz significa que a resiliência do sistema permanece atrelada às condições climáticas. Em anos de seca prolongada, como ocorreu em 2021, a geração fóssil atingiu 26% da eletricidade em agosto, contra apenas 14% em agosto de 2025. Essa variabilidade indica que o sistema brasileiro ainda não construiu independência plena em relação ao clima para a oferta de eletricidade.
Terceiro, o acesso à energia renovável não é equitativo. A expansão da geração distribuída, especialmente a solar em telhados, beneficiou predominantemente consumidores de classes média e alta que têm capacidade de investir em painéis. Consumidores de baixa renda e comunidades rurais permanecem à margem dessa transição, relying em tarifas reguladas que podem continuar a incorporar custos de transmissão e distribuição sem os benefícios da autogeração.
Cenários para a transição energética brasileira
O cenário mais favorável para a continuidade da transição energética brasileira depende de três desenvolvimentos convergentes: a aprovação de marcos regulatórios estáveis para armazenamento e geração distribuída, a atração de investimentos em transmissão para integrar parques eólicos do Nordeste e solares do Centro-Oeste ao sistema interligado, e a manutenção do ambiente competitivo global que mantenha o custo de equipamentos renováveis acessível.
No cenário menos favorável, a combinação de juros reais elevados, demora regulatória e incertezas geopolíticas poderia frear novos investimentos em capacidade renovável, mantendo o país em uma posição de liderança baseada no passado e não em capacidade de expansão futura. Nesse cenário, a meta de 81% de renováveis em 2055 seria atingida de forma passiva, pela estagnação da demanda e não pela construção de uma nova infraestrutura energética.
Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial generativa como ferramenta de assistência à redação. O conteúdo foi revisado e validado antes da publicação. As análises e opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não constituem aconselhamento jurídico.
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