Brasil ultrapassa EUA em liberdade de imprensa pela primeira vez: o que explica a mudança e o que ainda falta
Relatório da Repórteres Sem Fronteiras coloca o Brasil na 52ª posição, acima dos Estados Unidos pela primeira vez na história do ranking. Avanço de 58 posições desde 2022 é atribuído à melhora do ambiente político e institucional.
O marco histórico no ranking global de liberdade de imprensa
O Brasil alcançou um feito que não havia registrado em toda a série histórica do Índice Mundial de Liberdade de Imprensa: pela primeira vez, o país ultrapassa os Estados Unidos no ranking elaborado pela organização não governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Em 2026, o Brasil aparece na 52ª posição, enquanto os Estados Unidos caíram para o 64º lugar. O salto brasileiro é de 58 colocações desde 2022, quando o país ocupava a 110ª posição e era classificado como território de situação difícil para o exercício do jornalismo.
O resultado foi publicado em abril de 2026 e imediatamente gerou repercussão internacional. A posição brasileira representa uma saída da classificação de situação difícil para a categoria de situação sensível, um progresso significativo, embora o país ainda esteja longe dos primeiros colocados. A Noruega mantém a liderança pelo décimo ano consecutivo, seguida por outros países nórdicos e nações europeias.
O papel das mudanças políticas desde 2022
De acordo com Artur Romeu, diretor da Repórteres Sem Fronteiras na América Latina, a explicação principal para a melhora brasileira está na mudança do ambiente político e institucional após 2022. A organização afirmou que houve uma recomposição das relações entre o governo e a imprensa, com mais abertura ao diálogo, melhor acesso à informação pública e um discurso oficial menos hostil aos jornalistas. Essa avaliação é reforçada pelo relatório, que destaca a redução de ataques institucionais à imprensa e a implementação de mecanismos de monitoramento da violência contra profissionais da comunicação.
Entre os fatores citados no relatório estão a criação ou aprimoramento de protocolos para investigar crimes contra jornalistas, a ausência de assassinatos de profissionais da imprensa desde 2022 e a maior receptividade do poder executivo a pedidos de entrevista e acesso a informações públicas. Esses elementos criaram um ambiente mais favorável ao trabalho periodístico, especialmente em comparação com o período 2019-2022, quando o Brasil chegou a ocupar posições próximas ao final da lista de 180 países.
Por que os Estados Unidos recuaram no ranking
Enquanto o Brasil avançava, os Estados Unidos recuaram de forma consistente. O relatório associou essa queda ao ambiente político adverso à imprensa criado durante o mandato do presidente Donald Trump. A organização apontou que o governo americano travou uma verdadeira ofensiva contra a liberdade de imprensa, afetando todos os indicadores que compõe a metodologia do ranking: ambiente legal, pluralismo, independência dos meios, auto-censura, transparência e infraestrutura.
Entre os fatores específicos apontados estão ataques recorrentes a jornalistas em eventos públicos, restrições de acesso a instituições governamentais e o uso de estruturas estatais para pressionar veículos de comunicação. A posição americana na 64ª posição coloca o país abaixo de várias nações latino-americanas, incluindo o próprio Brasil, um dado que a RSF classifica como simbólico para compreensão da deterioração do ambiente para a imprensa no país que abriga grandes corporações de mídia.
O cenário global: mais da metade dos países em situação difícil
O relatório anual da RSF traz um dado preocupante: pela primeira vez na história do levantamento, mais da metade dos países analisados, 52,2%, está classificada em situação difícil ou muito grave para a liberdade de imprensa. Esse percentual representa um crescimento expressivo em relação a 2002, quando apenas 13,7% das nações estavam nesse patamar. A pontuação média global nunca foi tão baixa em 25 anos de levantamento.
A tendência reflete o aumento de pressões políticas, econômicas e de segurança sobre o jornalismo em todos os continentes. Governos autoritários intensificaram controles sobre a mídia, enquanto democracias consolidadas experimentaram retrocessos. Na América Latina, o quadro é heterogêneo: enquanto o Brasil registrou avanço significativo, países como Argentina, El Salvador, Peru e Equador registraram quedas recentes, impulsionadas por violência contra jornalistas e restrições institucionais.
Na outra ponta do ranking, países como Nicarágua, Cuba e Venezuela continuam entre os piores colocados, com severas limitações à liberdade de imprensa que persistem há anos. A China aparece na 178ª posição, a Rússia na 172ª e a Coreia do Norte na penúltima colocação, reforçando o padrão de que regimes autoritários mantêm controle mais rígido sobre a informação.
Os números do ranking: onde estão os países latino-americanos
Além do Brasil e dos Estados Unidos, o relatório apresenta posições detalhadas de vários países relevantes. A Argentina aparece na 98ª posição, o México na 122ª, o Equador na 125ª, o Peru na 144ª e o Salvador na 143ª. A Venezuela está em 160ª posição, Cuba em 165ª, Nicarágua em 172ª. Os dados indicam que, apesar do progresso brasileiro, a região ainda enfrenta desafios significativos para garantir condições adequadas ao exercício do jornalismo.
A comparação entre países vizinhos é relevante para calibrar o significado do resultado brasileiro. Estar na 52ª posição ainda representa uma classificação de situação sensível, o que implica que existem problemas concretos a serem resolvidos. O avanço, portanto, deve ser comemorado com cautela e acompanhado de esforços para eliminar os obstáculos restantes ao trabalho livre e seguro dos profissionais de comunicação.
Contrapontos e limites da avaliação
Apesar do resultado positivo, especialistas alertam para a necessidade de nuance. O avanço na classificação não significa que todos os problemas foram resolvidos. No Brasil, ainda há casos de jornalistas ameaçados, processos judiciais por crimes de difamação e dificuldades de acesso a informações públicas em esferas estaduais e municipais. A melhora no ambiente político federal não se estende uniformemente a todos os níveis de governo nem a todas as regiões do país.
Outra ressalva diz respeito à própria metodologia do ranking. A RSF utiliza critérios que incluem indicadores de percepção, o que pode gerar distorções entre a realidade documentada e a imagem percebida pelos profissionais da área. Além disso, o ranking não captura todas as nuances do exercício jornalístico no cotidiano, como a pressão econômica sobre veículos menores e a concentração da propriedade dos meios em grupos empresariais.
Também é importante considerar que o avanço brasileiro ocorreu em parte porque outros países recuaram. Os Estados Unidos, por exemplo, historicamente sempre pontuaram bem em liberdade de imprensa por serem uma democracia consolidada. A posição atual reflete deterioração causada por políticas específicas do governo Trump, não uma mudança estrutural permanente. Se essas políticas forem revertidas, é possível que os Estados Unidos voltem a melhorar no ranking, assim como o Brasil pode regredir se o ambiente político mudar.
Implicações e cenários para o futuro da liberdade de imprensa
O resultado brasileiro tem implicações tanto domésticas quanto internacionais. No contexto interno, o avanço no ranking pode servir como referência para políticas públicas de promoção da liberdade de imprensa, especialmente no que diz respeito à proteção de jornalistas e ao combate à impunidade por crimes contra profissionais da comunicação. A ausência de assassinatos de jornalistas desde 2022 é um dado que precisa ser mantido e reforçado por meio de políticas públicas efetivas.
Internacionalmente, a posição brasileira contradiz a narrativa de que a liberdade de imprensa seria incompatível com a realidade do país ou que o ambiente para o jornalismo teria se deteriorado irreversivelmente. Esse dado pode ser utilizado pelo Itamaraty para fortalecer a imagem do Brasil em fóruns internacionais e para defender posições em debates sobre direitos humanos e democracia.
O cenário mais provável para os próximos anos é de manutenção da posição brasileira, desde que o ambiente político institucional não sofra retrações significativas. A RSF sinalizou que continuará monitorando a situação, especialmente no que diz respeito a eventuais retrocessos. Para que o Brasil avance efetivamente para a categoria de situação boa, seriam necessários progressos adicionais na proteção de jornalistas em nível local, na transparência pública em todos os níveis de governo e na redução da concentração dos meios de comunicação.
Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial generativa como ferramenta de assistência à redação. O conteúdo foi revisado e validado antes da publicação. As análises e opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não constituem aconselhamento jurídico.
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