Artes visuais em 2026: o protagonismo latino-americano nos principais museus do Brasil
MASP, Pinacoteca, Inhotim e IMS prepararam programações de fôlego para 2026, com retrospectivas de artistas do continente, exposições sobre identidade e memória, e celebrações de marcos institucionais. O circuito aponta para uma inflexão na curadoria, com acento na descolonização de narrativas e no diálogo entre história e criação contemporânea.
A virada curatorial: América Latina como protagonista
O ano de 2026 marca uma inflexão no circuito brasileiro de artes visuais. Os principais museus e instituições culturais do país - MASP, Pinacoteca de São Paulo, Instituto Inhotim e Instituto Moreira Salles - apresentam programações que convergem para um mesmo eixo temático: a América Latina como sujeito, e não apenas como referência exótica ou complementar, da história da arte. Trata-se de um movimento curatorial que reflete, ao mesmo tempo, uma transformação nos estudos culturais latino-americanos e uma demanda por representatividade que ganhou força na última década em instituições ao redor do mundo.
No MASP, a programação anual de 2026 é dedicada integralmente às Histórias Latino-Americanas, ciclo que sucede as investigações sobre sexualidades, feminismos, afro-atlântico, dança e ecologia conduzidas pelo museu desde 2016. A proposta é debater a América Latina como uma identidade em disputa, formada por atravessamentos históricos, culturais e políticos. Mais de dez exposições investigam a produção do continente por diferentes recortes, reunindo artistas de países como Peru, México, Argentina, Chile, Colômbia e Venezuela, além do próprio Brasil.
MASP: retrospectivas, individuais e a grande exposição coletiva
Entre os destaques do MASP, a exposição do peruano Santiago Yahuarcani, artista indígena do povo Uitoto reconhecido na Bienal de Veneza 2024, acontece em abril. Yahuarcani utiliza llanchama - uma tela extraída da casca de árvore amazônica, pigmentada com corantes naturais - para retratar a cosmologia de seu povo e episódios do ciclo da borracha, articulando tradição pictórica ancestral com uma linguagem visual contemporânea. A mostra insere-se na proposta mais ampla do museu de revisitar histórias latino-americanas a partir de perspectivas muitas vezes excluídas dos grandes relatos museológicos.
Em maio, o mexicano Damián Ortega, um dos principais nomes de sua geração, recebe sua primeira individual em um museu paulistano, reunindo três décadas de produção. Ortega ganhou notabilidade ao desmontar objetos cotidianos - como carros inteiros - e suspender suas peças no espaço, investigação que percorre fotografia, vídeo, escultura e instalação sobre as conexões entre consumo, trabalho e vida social. O trabalho dialoga diretamente com a proposta curatorial do ano, ao evidenciar as estruturas produtivas que sustentam a vida material do continente.
Jesús Soto e a arte cinética como ponto final do calendário
Em novembro, o calendário do MASP é encerrado com a retrospectiva de Jesús Soto, duas décadas após sua morte. Pilar da arte cinética mundial, o artista venezuelano participou de cinco edições da Bienal de São Paulo e transformou a relação entre espectador e obra por meio de seus Penetráveis - instalações de tubos suspensos nos quais o visitante se integra à própria obra, eliminando a barreira tradicional entre objeto artístico e fruidor. A mostra reunirá peças de coleções internacionais, incluindo obras históricas raramente exibidas no Brasil, e representa um dos eventos mais aguardados do calendário museológico nacional.
Pinacoteca de São Paulo: 120 anos e 16 mostras em 2026
A Pinacoteca de São Paulo, após comemorar 120 anos em 2025, apresenta para 2026 uma programação baseada nos conceitos de arte, vitalidade e diversidade. Com direção artística de Jochen Volz e curadoria-chefe de Ana Maria Maia, a instituição oferece 16 exposições distribuídas entre os edifícios Pina Luz, Estação e Contemporânea, investigando relações entre arte, corpo, memória e cultura. Trata-se de uma das programações mais robustas da história da Pinacoteca, reforçando seu papel como um dos principais centros de arte contemporânea da América Latina.
Em março, o artista camaronês Pascale Marthine Tayou recebe sua primeira individual no Brasil com Nocaute, ocupando sete salas da Pina Luz. Tayou transita entre escultura, pintura e instalação para abordar identidade e trocas culturais, com obras que frequentemente utilizam materiais alternativos e referências culturais globais. No mesmo mês, Macunaíma é Duwid estreia na Pina Estação, sob curadoria de Gustavo Caboco, reinterpretando o personagem modernista sob perspectiva indígena e propondo um diálogo entre a literatura de Mário de Andrade e as cosmovisões dos povos originários.
Inhotim e seus 20 anos: memória, território e futuro
Em 18 de outubro, o Instituto Inhotim completa 20 anos de abertura ao público. O maior centro de arte contemporânea a céu aberto da América Latina celebra a data com uma programação que reúne oito inaugurações ao longo do ano. A exposição comemorativa dos 20 anos abre em setembro e traça o panorama histórico da instituição, reunindo personagens, paisagens e episódios fundamentais de sua trajetória em Brumadinho. A mostra propõe também um olhar sobre o futuro do museu, em um momento em que a relação entre instituição, território e comunidade volta a ser debatida no campo da arte contemporânea.
Entre as mostras de maior destaque do primeiro semestre, Dalton Paula recebe uma mostra panorâmica em abril, reunindo obras inéditas e trabalhos emblemáticos sobre cura e identidades negras. No mesmo mês, a escultura monumental Contraplano, de Lais Myrrha, cria um novo mirante para o público do parque, enquanto Davi de Jesus do Nascimento apresenta uma instalação inspirada nas margens do Rio São Francisco, na recém-reformada Galeria Nascente. Em outubro, a Galeria Cildo Meireles reabre ampliada e abriga permanentemente Missão/Missões (Como construir catedrais), reunindo o conjunto mais relevante do artista em exibição no país.
Instituto Moreira Salles: fotografia, arquivo e a Amazônia em foco
O Instituto Moreira Salles (IMS), referência nacional em fotografia, apresenta sua programação para 2026 distribuída entre São Paulo e Poços de Caldas. Na sede paulista, a exposição Desocultação investiga a obra do luso-brasileiro Fernando Lemos, conhecido por explorar as relações entre fotografia e desenho. Já Reimaginar a Amazônia contrapõe fotografias de Albert Frisch de 1860 - primeiras imagens registradas da Amazônia - a obras de artistas indígenas contemporâneos, propondo um olhar que questiona a tradição documentária e oferece ressignificações visuais da floresta e de seus povos.
Entre as mostras de destaque, o IMS exibe ainda o arquivo Zumví, acervo fundamental do movimento negro brasileiro, e uma retrospectiva de Ara Güler, fotógrafo turco célebre por documentar Istambul no século XX. Em Poços de Caldas, a exposição Stefania Bril: desobediência pelo afeto resalta o olhar singular da fotógrafa polonesa radicada no Brasil após a Segunda Guerra, cujo papel na difusão da fotografia no país foi fundamental.
Contrapontos: institucionalização, descolonização e os limites da curadoria
A concentração de programações latino-americanas nos principais museus do país não está isenta de críticas. Parte do debate contemporâneo na área de artes visuais aponta que a inserção de temas como descolonização, ancestralidade e identidade no circuito institucional pode, paradoxalmente, domesticar essas pautas ao submetê-las à lógica dos grandes museus, com seus orçamentos, estruturas e públicos restritos. A inclusão curatorial não é, por si só, uma transformação estrutural.
Há também a questão do acesso. Museus como MASP, Pinacoteca e Inhotim localizam-se em polos culturais de grandes metrópoles, com custos de deslocação e permanência que limitam o acesso de populações de periferias urbanas, do interior do país ou de outros estados. O debate sobre representatividade latino-americana nas paredes dos museus precisa, necessariamente, cruzar-se com a agenda de democratização cultural e políticas públicas de acesso à arte. Ações como entradas gratuitas, transporte subsidiado e programações descentralizadas existem em caráter pontual, mas ainda não constituem política sistemática nos principais institutions culturais do país.
Cenarios: o que a programação de 2026 indica para o futuro das artes visuais
A programação de 2026 nos principais museus brasileiros sugere algumas tendências de médio prazo. A primeira é a consolidação da América Latina como eixo curatorial não episódico, mas sim estrutural, nas grandes instituições. A segunda é a valorização de perspectivas decoloniais e de artistas indígenas e afrodescendentes, que ganham cada vez mais espaço em mostras de fôlego e não apenas em nichos curatoriais específicos. A terceira é a aproximação entre arte, história e política, com exposições que não se limitam ao objeto estético, mas propõem intervenções sobre a memória e o território.
Em sentido inverso, permanece como desafio a criação de pontes consistentes entre o circuito institucional e as práticas artísticas que acontecem fora dele - em periferias urbanas, comunidades rurais, aldeias indígenas e espaços independentes. Também permanece aberta a questão da diversidade de públicos: se as programações latino-americanas conseguirão atrair visitas de grupos que historicamente não se viram representados no circuito museológico tradicional, ou se se tratam, em última instância, de ofertas culturais que confirmam o público já existente dessas instituições. O anno de 2026 será, nesse sentido, um teste relevante para a retórica descolonizadora que orienta buena parte da programações anunciadas.
Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial generativa como ferramenta de assistência à redação. O conteúdo foi revisado e validado antes da publicação. As análises e opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não constituem aconselhamento jurídico.
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