O Brasil no Top 8 da Música Global: o que sustenta o crescimento recordista do mercado fonográfico
Com R$ 3,9 bilhões em 2025, o Brasil consolidou a 8ª posição no ranking mundial da música gravada, impulsionado pelo streaming pelo 16º ano consecutivo, mas o setor enfrenta desafios com IA, fraudes e distribuição desigual de receitas.
O salto brasileiro no ranking global da música
O mercado fonográfico brasileiro encerrou 2025 com um faturamento de R$ 3,958 bilhões, o que representou crescimento de 14,1% em relação ao ano anterior, segundo dados da Pró-Música Brasil. O resultado levou o país à 8ª posição no ranking global da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), subindo uma posição em relação a 2024, quando ocupava o 9º lugar, e duas em relação a 2023, quando estava em 10º. Essa progressão contínua coloca o Brasil entre os mercados que mais crescem no mundo de forma sustentada.
O dado mais relevante, no entanto, não está apenas na posição do país, mas na trajetória. Segundo a Pró-Música Brasil, 2025 marcou o 16º ano consecutivo de expansão do mercado fonográfico brasileiro, que se recupera de uma crise profunda no início da década de 2010 causada pela pirataria física e digital. O modelo de streaming, que se consolidou globalmente, encontrou no Brasil um ambiente particularmente receptivo e permitiu a reconstrução das receitas do setor a partir de 2015.
A liderança absoluta do streaming nas receitas
As plataformas de streaming responderam por aproximadamente R$ 3,4 bilhões da arrecadação total, o que equivale a 87,6% das receitas do setor. O segmento digital como um todo cresceu 13,2% frente a 2024. Esses números colocam o Brasil acima da média global de participação do streaming, que gira em torno de 69% segundo o relatório Global Music Report 2026 da IFPI, publicado em março de 2026. A América Latina como região foi a que mais cresceu no mundo em 2025, com alta de 17,1% nas receitas, sendo o Brasil um dos principais motores desse avanço.
O presidente da Pró-Música Brasil, Paulo Rosa, afirmou em entrevista à Agência Brasil que o streaming mantém no Brasil uma participação entre 83% e 87% das receitas nos últimos cinco ou seis anos, acima da média global. Para Rosa, o modelo de assinatura encontrou terreno fértil no país, onde a combinação de acesso a smartphones, banda larga e baixo custo de planos de streaming alimentou a expansão do número de assinantes pagos, que é o motor principal da receita do setor.
Vinil e vendas físicas: o fenómeno que contraria as previsões
Embora representem menos de 1% do total das receitas do setor, as vendas de música física cresceram 25,6% em 2025, impulsionadas pela procura por vinil. O resultado contrasta com as previsões que davam o formato como morto há mais de uma década. Paulo Rosa avaliou que o retorno do vinil se explica por uma combinação de nostalgia e curiosidade, além de estratégias de carreira de artistas que utilizam o formato como diferencial de marketing e coleção.
Rosa comentou à Agência Brasil que o vinil nunca morreu de fato e que o que se viu nos últimos anos foi uma onda de procura que gerou lançamentos novos e reedições. Também alertou que fazer previsões absolutas sobre a morte de formatos é arriscado, mencionando a possibilidade de retorno do cassete como exemplo de tecnologia antiga que pode ressurgir.
Os desafios estruturais: inteligência artificial, fraudes e distribuição
Apesar do crescimento recordista, o setor musical enfrenta desafios estruturais que ameaçam a sustentabilidade do ecossistema. O primeiro deles é a inteligência artificial. Paulo Rosa considerou que a IA traz perigo ao mercado porque conteúdos musicais de todo o mundo passaram pelo processo de mineração de dados para treinamento de sistemas de IA sem autorização dos titulares dos direitos. Na visão dele, a utilização não autorizada de gravações de artistas e produtores para aprendizado de sistemas de IA é um problema que afeta tanto o Brasil quanto o mercado global.
Rosa defendeu a aprovação pelo Congresso Nacional de projetos de lei que garantam o avanço tecnológico em um ambiente equilibrado, com respeito aos direitos fundamentais sobre criações dos artistas. No cenário internacional, a questão também está em debate: segundo dados da plataforma Deezer divulgados em 2026, mais de 13,4 milhões de faixas geradas por IA foram detectadas e rotuladas em 2025. A questão central é se a IA pode gerar obras que substituam artistas humanos e como os sistemas de direitos autorais se adaptam a esse cenário.
Fraudes e manipulação no streaming
Além da IA, as fraudes no streaming representam um desafio significativo. A Pró-Música Brasil detalhou que são utilizados meios artificiais, como robôs que navegam pelas redes e plataformas, para criar reproduções indevidas de faixas e desviar receitas que deveriam ser destinadas a autores, artistas e produtores. Segundo a entidade, como resultado de ações de combate a essas fraudes, mais de 130 sites de impulsionamento artificial de streaming foram encerrados ou deixaram de oferecer serviços musicais nos últimos anos, sendo 60 apenas em 2025. Os casos detectados são encaminhados aos ministérios públicos para apuração.
Quem se beneficia do crescimento?
Um ponto que permanece com incertezas é a distribuição dos benefícios desse crescimento. Embora as receitas do streaming tenham crescido de forma consistente, críticos apontam que os valores pagos por streams são muito baixos para a maioria dos artistas, especialmente os independentes. O modelo de royalties do streaming funciona por frações de centavo por reprodução, o que exige volumes muito altos de execuções para gerar receita significativa.
A Pró-Música Brasil sustenta que as gravadoras desempenham um papel essencial na cadeia, investindo em produção de novos artistas e no marketing de promoção, atividades que comportam risco significativo. Paulo Rosa afirmou que as gravadoras criam o modo de vida da maior parte dos artistas até que eles tenham capacidade própria de sustentar carreiras além do mercado fonográfico, por meio de apresentações ao vivo, publicidade e branding. Essa visão contrasta com a de analistas que argumentam que o modelo de streaming concentra as receitas nas grandes plataformas e gravadoras em detrimento dos criadores.
A questão dos direitos conexos
Um destaque positivo apontado pela Pró-Música Brasil foi a arrecadação de direitos conexos de execução pública para produtores, artistas e músicos. Esses direitos, que garantem remuneração quando músicas são tocadas em espaços públicos, shows e outras modalidades de execução pública, têm ganhado maior relevância à medida que o ecossistema musical se diversifica. No entanto, ainda há debate sobre a eficácia da fiscalização e da distribuição desses valores no contexto digital.
Perspectivas internacionais e contexto competitivo
No cenário global, o mercado de música gravada atingiu receita de US$ 31,7 bilhões em 2025, marcando o 11º ano consecutivo de crescimento segundo a IFPI. O streaming como um todo respondeu por 69,6% desse total, ultrapassando US$ 22 bilhões em receitas. Os Estados Unidos permanecem como o maior mercado individual, seguidos por China e Japão. A entrada do Brasil no Top 10 e agora na 8ª posição reflete tanto o crescimento interno quanto a ascensão da América Latina como região estratégica para a indústria musical global.
A música latina nos Estados Unidos também atingiu um marco em 2025, ultrapassando US$ 1 bilhão em receitas no país pela primeira vez, segundo a RIAA, e mantendo dez anos consecutivos de crescimento. Esse dado demonstra que o interesse global pela música de origem latina não é apenas uma tendência passageira, mas uma reconfiguração durável do mercado. O Brasil, como maior país de língua portuguesa e o maior mercado musical da América do Sul, está posicionado para beneficiar-se dessa dinâmica.
Contrapontos e limites da análise
É importante reconhecer os limites deste cenário aparentemente positivo. O crescimento de 14,1% em valores nominais não significa necessariamente que todos os atores do ecossistema estejam se beneficiando na mesma proporção. A concentração do mercado em poucas plataformas e gravadoras levanta questões sobre a distribuição equitativa de receitas. Além disso, o crescimento do streaming não resolve por si só o problema estrutural da baixa renda da maioria dos artistas independentes, que dependem de outras fontes como shows e licenciamentos para sobreviver.
Quanto à inteligência artificial, o cenário regulatório ainda é incerto. Embora haja consenso sobre a necessidade de respeito aos direitos autorais, não há ainda um marco regulatório consolidado no Brasil que aborde de forma eficaz o uso de obras musicais para treinamento de IA. O risco de que a IA generativa produza músicas em larga escala que diluam a remuneração de artistas humanos é real e não pode ser descartado. Também persistem dúvidas sobre como medir e distribuir royalties quando a autoria é parcialmente ou totalmente gerada por algoritmos.
Por fim, a disparidade entre o crescimento do mercado formal e o acesso da população à música de qualidade permanece como um desafio social. O fato de o Brasil ocupar a 8ª posição global não se traduz necessariamente em melhores condições para a totalidade dos profissionais do setor, que incluem desde técnicos de som e produtores até inúmeros cantores independentes que não conseguem viver apenas da música gravada.
Cenários e síntese
Olhando para a frente, o mercado fonográfico brasileiro tem fundamentos sólidos para manter a trajetória de crescimento. A penetração de smartphones e internet de banda larga continua a expandir-se, o que amplia o potencial de público para serviços de streaming. O crescimento da América Latina como região estratégica para a indústria global também beneficia o Brasil, que serve como porta de entrada para o mercado de língua portuguesa e como polo de produção musical para o continente.
No entanto, os desafios estruturais não desaparecem. A regulação da inteligência artificial, o combate às fraudes e a distribuição equitativa de receitas são questões que definirão se o crescimento será sustentável e inclusivo. O 16º ano consecutivo de expansão é uma conquista relevante, mas a sustentabilidade de longo prazo depende de respostas concretas a esses problemas. O Brasil está no Top 8, mas manter essa posição e avançar no ranking dependerá de como o ecossistema musical enfrentar as transformações tecnológicas e as desigualdades estruturais que ainda marcam o setor.
Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial generativa como ferramenta de assistência à redação. O conteúdo foi revisado e validado antes da publicação. As análises e opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não constituem aconselhamento jurídico.
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