Economia brasileira em 2025: entre o crescimento modesto, a guerra fiscal e os desafios estruturais
PIB cresce 2,3% em 2025 com agropecuária como motor, mas juro alto, deterioração fiscal e incertezas externas impõem cautela ao cenário para 2026.
O PIB que poderia ter sido maior
O Produto Interno Bruto do Brasil encerrou 2025 com crescimento de 2,3%, atingindo R$ 12,7 trilhões em valores correntes. O resultado representa uma desaceleração significativa em relação aos 3,4% registrados em 2024, quando a economia surpreendeu pela força do azul. Ainda assim, o país manteve a trajetória de três anos consecutivos de expansão, algo que não ocorria desde o ciclo entre 2008 e 2010.
Para 2026, o FMI revisou a projeção de crescimento para 1,9%, ligeiramente acima dos 1,8% anteriores, enquanto o Boletim Focus do Banco Central aponta consenso em torno de 1,83%. A mediana das estimativas do mercado financeiro situa-se em 2,26%, segundo dados da pesquisa conduzida semanalmente pela autoridade monetária.
A desaceleração tem explicação na política monetária contracionista. Com a taxa Selic em 15% ao ano desde junho de 2025 — o maior patamar em quase duas décadas —, o crédito encareceu, o investimento retraiu e o consumo perdeu fôlego. A atividade econômica sentiu o peso dos juros elevados ao longo de todo o segundo semestre, com o PIB do terceiro trimestre avançando apenas 0,1% na comparação com o período anterior.
Agropecuária: o motor invisível do crescimento
Se a indústria e os serviços caminharam em terreno mais modesto, a agropecuária compensou com folga. O setor registrou alta de 11,7% em 2025, a maior expansão entre todos os segmentos da economia, respondendo por aproximadamente R$ 775,3 bilhões ao PIB. A safra recorde de grãos, com especial destaque para milho e soja, sustentou o resultado.
Quando se observa o agronegócio como um todo — englobando toda a cadeia produtiva, da agricultura ao processamento e à comercialização —, o número sobe para R$ 3,2 trilhões, o que representa 25,13% do PIB brasileiro. É como se um em cada quatro reais produzidos no país tivesse origem no campo. O dado evidencia a dependência estrutural da economia brasileira commodities agrícolas e os riscos associados a variáveis climáticas e aos preços internacionais.
Inflação dentro da meta, juros ainda altos
A inflação foi, paradoxalmente, uma das boas histórias de 2025. O IPCA encerrou o ano em 4,32%, dentro do teto da meta perseguida pelo Banco Central, fixada em 3,5% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual. Depois de ter atingido pico de 5,53% em termos acumulados em doze meses em abril, o indicador entrou em trajetória de queda sustentada a partir do segundo semestre.
A partir de 2025, as regras da meta mudaram. O Banco Central passou a perseguir uma meta contínua de inflação — com base no IPCA acumulado em doze meses — e não mais a inflação observada no dia 31 de dezembro de cada ano. Com a nova regra, a autoridade monetária somente descumprirá a meta se o índice ficar fora do intervalo proposto ao longo de seis meses consecutivos.
Apesar da queda da inflação, o Banco Central manteve a Selic inalterada em 15% ao ano durante todo o segundo semestre. O Copom (Comitê de Política Monetária) justificou o tom austero pela necessidade de ancorar expectativas e pela incerteza fiscal doméstica. O mercado prevê cortes da taxa básica ja no primeiro trimestre de 2026, com reduções progressivas até o final do ano. O Boletim Focus indica projeção de Selic em torno de 12% ao final de 2026.
Com inflação em queda e juros elevados, a taxa real de juros no Brasil está entre as mais altas do mundo, o que gera efeitos colaterais sobre o serviço da dívida pública e o custo do crédito para empresas e famílias.
Emprego em máxima histórica, mas com sinais de esfriamento
O mercado de trabalho foi outro ponto positivo inesperado. A taxa de desemprego encerrou 2025 em 5,6%, queda de 1,0 ponto percentual em relação aos 6,6% de 2024. No trimestre movel encerrado em novembro, o indicador chegou a 5,2% — o menor nível desde 2012, conforme dados da Pnad Continua do IBGE. Ao todo, havia aproximadamente 102 milhões de pessoas ocupadas no país.
O Resultado é tanto mais notável quanto se considera o ambiente de juros altos, que normalmente freia a contratação. Especialistas do FMI destacaram que o Brasil poderia ampliar o crescimento econômico incorporando mais mulheres ao mercado de trabalho, indicando uma janela de potencial ainda inexplorado.
Para 2026, porém, a expectativa é de arrefecimento. A mediana das projeções indica a taxa de desemprego subindo para 6,2% ao final do ano, com menor ritmo de contratação e moderação salarial. O arrefecimento do mercado de trabalho deve contribuir para a moderação da demanda interna e, por conseguinte, da inflação.
Dívida pública no teto e o rombo fiscal estrutural
Se o crescimento e o emprego trouxeram alívio, o quadro fiscal mantem-se como a maior vulnerabilidade da economia brasileira. A dívida bruta do governo geral encerrou 2025 em 78,7% do PIB, alta de 2,4 pontos percentuais no acumulado do ano, segundo dados do Banco Central. O saldo absoluto alcançou R$ 10,3 trilhões.
Em fevereiro de 2026, o indicador subiu para 79,2% do PIB, o maior patamar em mais de quatro anos. Projecoes da Instituicao Fiscal Independente (IFI) do Senado indicam que o governo deve encerrar 2026 com cerca de R$ 147,7 bilhões fora do teto de gastos, evidenciando a dificuldade estrutural de equilibrar as contas públicas.
O déficit primário acumulado até novembro de 2025 atingiu R$ 227,5 bilhões, com déficit nominal medio estimado em 8,54% do PIB entre 2023 e 2026 — o maior da história republicana, superando o registro do governo Dilma-Temer (8,48% do PIB entre 2015 e 2018). A trajetu00f3ria ascendente da divida gera preocupações sobre a sustentabilidade fiscal do país no médio prazo.
Parte do problema reside na rigidez do gasto público. Despesas obrigatórias com previdência, pessoal e beneficios sociais consomem a maior parte do orçamento, reduzindo a flexibilidade para investimentos e politicas anticicliclas. O arcabouco fiscal, que substituiu o teto de gastos, mostra-se insuficiente para conter a expansão das despesas, especialmente com medidas expansionistas adotadas no segundo mandato de Lula.
Câmbio: a surpresa positiva do ano
Após iniciar 2025 acima de R$ 6 por dólar, na esteira da crise de confiança com a política fiscal ao fim de 2024, o câmbio reverteu completamente o quadro. O dólar encerrou o ano com queda de 11%, sendo negociado abaixo de R$ 5,50 — um movimento que surpreendeu analistas e tranquilizou os mercados financeiros.
O enfraquecimento do dólar no cenário internacional, impulsionado pela perda de confiança nas instituições dos Estados Unidos sob a administração Trump, contribuiu para o movimento de apreciação do real. Internamente, a queda dos juros reais elevados e a perspectiva de cortes da Selic em 2026 também colaboraram para atrair capital estrangeiro.
Para exportadores, porém, a apreciação do real representa um desafio, na medida em que reduz a competitividade em moeda estrangeira. Para importadores de bens industrializados e equipamentos, o câmbio mais baixo é um alívio.
Comércio exterior: acordo Mercosul-UE entra em vigor e relações com China se aprofundam
O comércio exterior brasileiro foi marcado por dinamismo e rebalanceamentos significativos em 2025. O volume de exportações cresceu aproximadamente 17% em relação ao ano anterior, impulsionado principalmente por produtos agrícolas e bens industrializados intermediários. As vendas de produtos agropecuários subiram cerca de 20%, enquanto os bens industriais avançaram 15%.
Um dado que chama atenção é a divergência nas relações comerciais com as duas maiores economias do mundo. As exportações para a China subiram 36% em volume, enquanto as vendas aos Estados Unidos recuaram 24%. A dependência do mercado chinês consolidou-se como traço estrutural do comércio exterior brasileiro, com implicações estratégicas e geopolíticas.
Em compensação, as importações de bens dos Estados Unidos cresceram 10% no último trimestre de 2025, evidenciando que o Brasil continua recorrendo a produtos manufaturados de alto valor agregado norte-americanos, como máquinass e componentes aeroespaciais, além de derivados de petróleo.
O grande evento do período foi a assinatura e entrada em vigor, em 1º de maio de 2026, do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia — uma negociação que durou mais de duas décadas. O tratado cria uma zona de livre comércio abrangendo cerca de 700 milhões de pessoas. Projeções indicam que as exportações de carne bovina para a UE podem crescer até 80%, enquanto máquinasria pode avançar mais de 15%. O acordo foi remetido ao Tribunal de Justiça da UE para verificação de compatibilidade com tratados existentes, o que pode atrasar a ratificação definitiva em até dois anos.
Cenário internacional: resiliência acima do esperado, mas riscos persistem
No plano global, a economia mundial demonstrou resiliiencia surpreendente diante da guerra comercial deflagrada pela política tarifária de Donald Trump. O FMI revisou para cima suas projeções de crescimento global, estimando uma taxa de 3,2% para 2025, ligeiramente abaixo dos 3,3% de 2024. Para economias emergentes e em desenvolvimento, a projeção é de crescimento de 3,9%, enquanto economias avançadas devem avançar 1,8%.
A incerteza segue sendo o fator dominante no cenário global. As tarifas impostas por Estados Unidos a produtos de diversos países — incluindo o Brasil — geraram ondas de incerteza nos mercados financeiros internacionais. A possibilidade de retaliações e o risco de uma espiral protecionista mantêm os agentes econômicos em alerta.
Para o Brasil, os principaís canais de transmissão incluem a perda de dinamismo do comércio internacional, especialmente com a desaceleração da economia norte-americana, e o impacto sobre os preços de commodities exportadas. Por outro lado, a diversificação das relações comerciais, evidenciada pelo aprofundamento com a China e o acordo com a União Europeia, oferece alguma proteção contra choques concentrados.
Desafios e perspectivas para 2026
O cenário para 2026 combina elementos de cautela e esperança moderada. Do lado positivo, a inflação controlada abre espaço para o início de um ciclo de corte de juros, o que deve aliviar gradualmente o custo do crédito e estimular o investimento. O mercado de trabalho ainda apresenta resiliiencia, e o acordo Mercosul-UE pode impulsionar exportações em setores específicos.
Do lado dos riscos, porém, a deterioração fiscal permanece como a principal vulnerabilidade. A trajetória ascendente da dívida pública, a persistência de déficits primários elevados e a rigidez do gasto obrigatório exigem medidas estruturais que parecem distantes no horizonte político atual. O spread entre os juros domésticos e os praticados em economias emergentes eleva o custo de rolagem da dívida e pode afetar a percepção de risco do país.
A depender de como evoluam as condições internas — especialmente a articulação política em torno de arcabouço fiscal crível — e externas — a resolução ou intensificação da guerra comercial —, o Brasil pode tanto avançar para uma fase de crescimento sustentado com estabilização fiscal quanto enfrentar nova rodada de turbulência nos mercados.
Os indicadores disponíveis até o momento sugerem que o país caminha para um crescimento modesto, inflação em trajetória de queda e juros em trajetória de queda. A questão central não é se os juros vão cair, mas se o arcabouço fiscal será capaz de recuperar a credibilidade necessária para que a queda dos juros não se reverta em nova onda de desconforto nos mercados. Essa resposta, por sua vez, depende menos de indicadores econômicos e mais de escolhas políticas que ainda estão por ser feitas.
Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial generativa como ferramenta de assistência à redação. O conteúdo foi revisado e validado antes da publicação. As análises e opiniões expressas são de responsabilidade do autor e não constituem aconselhamento jurídico.
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